Início » 10 – Esfera de Duas Estrelas/Katiuska

10 – Esfera de Duas Estrelas/Katiuska

“Acorda, São Paulo, do seu sono justo: é hora do Pulo do Gato.” O rádio badalava as seis horas da manhã. O sol não havia ainda nascido e o céu era um azul minguante. Quando Hinagiku me acordou, me lembrei de imediato que aquele era o dia derradeiro. Ela trouxe meu prêmio de aluno em uma caixa hexagonal de madeira pintada em tonalidade suaves, com figuras de papel (anjos, corações, flores) coladas na parte de cima em meio à decoração de strass. Então senti a sobrecarga, o soco: à visão da esfera de duas estrelas, algo se apossou de mim e nem mesmo percebi que dizia:

— Você vai morrer.

***

Uma menina ruim cutuca a lava com um toco de madeira; o magma revela sem romper-se diversas rachaduras de fogo. Minha prima Katiuska, franja castanha sobre a testa, camiseta rosa com moça de vestido amarelo, sapatos com cerejinhas dispôs à minha avó essa informação: você vai morrer. A qual ela ouviu como uma ameaça, um desejo, um “quero que você morra”; e, portanto, passou a cozinhar em banho-maria um rancor. Sete anos teria Katiuska à época; seria mesmo capaz de uma agressividade de alvo tão definido? Uma menina leviana engatilha uma espingarda de festim; mira em freiras, pombas e avós (e, quem sabe, aponta o cano à própria boca). Uma criança pode falar a alguém: eu te odeio. Mas o que conhece a respeito do comprometimento do ódio? Mais provável era que Katiuska apenas seguisse as vias de um raciocínio: a avó era idosa, seus pais eram jovens; soubera de velhos que morreram e que se morria quando velho. (Eu tinha onze anos e meu irmão mais novo tinha dois; estávamos em Caldas, Minas Gerais, na casa dos fundos, sentados na soleira da porta, à frente de um jardim com tartaruga e videira. As férias continham já muitas ocorrências — quando cheguei à cidade, havia me deitado na calçada para ver a calcinha de uma prima; no dia de Natal, tirei as roupas das bonecas e as escondi debaixo da cama para apoquentar as meninas — mas a daquela tarde, sob o sol hoje nostálgico, teria um caráter tanto mais filosófico. Alguém disse ao meu irmão que morreríamos todos, no fim. Chorou; pela incompreensão enorme? Lembro-me de observá-lo sem entender. Não se chora por lendas, a morte pra mim era como que uma lenda.) De todo modo, por que comunicar a sentença? (Esperávamos que nossa amiga saísse de casa, eu e outros colegas, acomodados na calçada de uma rua de São Vicente, São Paulo. Extrovertida, punk, dona de um riso escandaloso durante o qual até batia nas pessoas, nos encontrou amuada — sua avó estava doente — e nos perguntou, pois tinha acabado de receber uma ligação do hospital: que significa óbito? O que significa óbito? Eu sabia. Eu não abri a boca.) Que alguém lhe mandara dizer aquilo era uma hipótese plausível, e quem mais senão sua nora, minha avó concluiu, agregando ao despeito antigo outro elemento. O que Katiuska teria ouvido em contra-ataque: se você quer que eu morra, fique sabendo que eu não morro tão cedo, primeiro vai morrer a tua mãe e a tua vó. Ou: se você não se importa comigo, não vai te sobrar ninguém. Ou: neste autodecreto de sobrevida, o medo, as variedades do medo: não havia como desmentir a afirmação, era preciso menti-la. Uma menina fútil inspira-se em si mesma para desenhar um demônio numa folha de cartolina amarela; como se conhece bem, o preenche cada vez com mais detalhes; quanto mais real, mais o demônio a aterroriza. Minha avó não era ingênua em relação à morte; de 16 irmãos, 10 morreram, ninguém sairia disso com uma fragilidade vigorosa. Porém, não podia deixar de crer que falar da morte era dar-lhe seu endereço. (Um homem decidiu por à prova o amor da família, contava ela. Arrumou a sala com antúrios e gérberas, acendeu velas por todo o recinto e deitou-se na mesa de jantar com as mãos sobre o peito. Fechou os olhos e aguardou para avaliar a intensidade das lágrimas. Houve lágrimas, sim, entretanto não chegou a assisti-las; morrera de fato, fulminado pelo blefe.) Por igual motivo não pronunciava o termo “câncer”, sempre preferindo “aquela doença ruim”. (Comentara a minha avó com o vizinho do sítio ao lado, enquanto passava o cortejo de um velório: o próximo é o senhor. A piada ultrapassou o tabu e logo cobrou seu preço: o homem, de fato, faleceria pouco depois e, à noite, quando ela caminhasse no escuro e no sereno até o banheiro, o escutaria tossir.) No mesmo sentido: nunca admitiu totalmente o diagnóstico do enfarto e da falência dos pulmões — segundo ela, meu avô morreu por conta de macumba. Eu me questionava, qual a diferença, se morreu, morreu, a fantasia é inútil, mas é que eu não notava a modificação estrutural que a frase impunha ao mundo: as pessoas jamais morrem, as pessoas são mortas. As enfermidades não eram a degradação progressiva e inelutável dos corpos; o que fere é somente o mal, a ação da feitiçaria é o que conspurca a carne sadia por princípio; as enfermidades são um jogo de damas metafísico — o inimigo negocia com entidades transcendentes a realização de um crime e marca seu alvo na existência reunindo fios de cabelo e rasgos de roupa em uma encruzilhada; nós podemos, do outro lado, reagir com idênticas armas. O fundamental é que tudo permaneça ao alcance da ação. Não é preciso agir, basta crer que seria possível agir. (O primeiro defunto que vi foi Rubens, um parente; não sentia nada por ele; compreendia, no entanto, o momento, sabia o que devia sentir em torno do caixão: forcei-me a chorar.) Uma menina forte plantou um anjo no quintal para defendê-la dos perigos; sua harpa ecoava calmante, mas seu primeiro voo mutilou suas raízes e o matou. Tantas e tantas vezes escutei a lembrança do que Katiuska dissera, e o que aprendi com as repetições foi só a proibição. Minha prima pode pôr a chama viscosa, a pólvora, o mistério na boca e provar o gosto — eu só soube que era uma coisa que eu nunca deveria dizer.

***

(O que foi isso? O que a esfera fez comigo?)

— Você vai morrer. Estou assustado.

Os sons dos pássaros da madrugada abriram caminho em meio ao transe até a minha consciência. Meus olhos estavam secos, percorridos por pruridos, as palmas das minhas mãos estavam suadas. A esfera: em seu núcleo alguém viveu. “Eu já morri”, respondeu a minha mestra, “em um sonho”. No devaneio, o planeta era destruído por imensas enchentes; todos se afogavam. “O mundo acaba na água”, completava ela em nota de rodapé profética. “Eu já morri.”

***

Naquela noite, ela me daria a mão e caminharíamos para longe. A parada final, o torneio. Antes, nós encontraríamos outro discípulo de Hinagiku, Shukun. Sobre as nossas cabeças, dançavam no ar azul-escuro como que fogueiras flutuantes. O termo científico — “fogo-fátuo” — procura despojá-los da sua fantasmagoria, mas, diante do fenômeno, não o podem. O real supera-se em uma hipnose. Eu via neles assombrações, maldições. “Pode vir!”, conclamou Hinagiku, “Vem com a gente!”. E eles, à revelia do meu pavor, aquiesceram e nos seguiram, sobressaltados pelo vigor da lua crescente.