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11 – Cachorros-Quentes e Livros Obcecados

Desde a rua Orindiúva, passando pela Mere Amédea até a avenida Guilherme Cotching, tudo tinha sido devastado. Viaturas da Polícia Militar fumegavam no meio do asfalto. Carros abandonados e pilhas de pneus velhos velavam postos de gasolina largados ao léu. À frente da loja de calçados Alfredo, a gangue Cruz-Caveira nos sorria maliciosa. “Lacaios do Jade”, murmurou Hinagiku, “tem indulto de qualquer crime contanto que levem gente arrastada”.  O primeiro a sair da calçada e vir nos desafiar tinha boina, camisa e calça azul, além dos óculos escuros — quebrados na metade por um soco ágil da minha mestra, que o fez cair de costas. Enfureceram-se.

Outro, lenço verde na cabeça, garras de três lâminas presas nos pulsos — pseudo-Wolverine — se lançou contra ela velozmente. O aço zumbia no ar conforme ela desviava das unhadas. Enquanto eu olhava, um homem obeso de moicano me deu um encontrão com o ombro, jogando-me longe. Eu me erguia, ele já tomava distância para uma segunda colisão. Aguardei. Quando se aproximou, dei-lhe um chute alto no queixo que o pôs de pés pra cima e de lombo no chão. Hinagiku derrotou o seu também e, por um momento, houve calma. Mas logo descobriríamos que a Cruz-Caveira era legião. Seus acólitos nos envolveriam como enxame e nos perseguiriam sem trégua.

***

Da carroceria de um caminhão, pulou um troglodita musculoso, de regata branca e quepe policial, armado de cassetete. Hinagiku aparou um, dois, três golpes nos antebraços, depois saltou girando no ar com as pernas em ângulo de 90 graus; seu pé chocou-se uma, duas, três vezes contra o rosto do criminoso. Cuspiu dente e limpou sangue da bochecha estourada quando se levantou. Já eu era confrontado por duas mulheres com a mesma roupa, porém de cores diferentes — top, calça justa de vinil; lilás e verde-musgo — ambas com duas adagas, uma em cada mão. Rasgaram minha face um pouco abaixo do olho direito (depois tive de tomar três pontos para fechar). Agachei e rodei a perna esticada, rasteirando a primeira e a segunda. Então um chute com a sola em cada pescoço.

O quepe veio rolando até os meus sapatos. O miliciano havia sido atirado ao gramado alto de um terreno, atravessando a tela de arame que o protegia, e agora dormia o sono dos injustos; porém Hinagiku estava cercada. Dois gigantes com grandes cabeleireiras vermelhas e correntes amarradas na cintura; um rapaz negro de cabelos raspados, cinto com presilha de ouro, lenço rubro no peito; um maníaco de máscara de ferro e dreads que portava uma enorme chave inglesa. Minha mestra se deixou ficar no centro, cerrou os punhos e, no instante certo, volteou rápida no próprio eixo. Seus punhos violentaram seguidamente os maxilares de todos os oponentes. Só um se pôs de pé outra vez: esse que arrancava a máscara afundada e revelava sua cara mutilada e aberrante.

Corri na sua direção. Tão veloz que eram um borrão os veículos antigos atrás das vitrines das lojas surpreendentemente intactas, enfeitadas com pequenas árvores; tão veloz que o ferro-velho do outro lado da rua — seus carros empilhados, seu piso de terra batida — era um rastro no ar acobreado e ferroso. Chutei-lhe os calcanhares para que perdesse o equilíbrio, a chave inglesa errando a minha têmpora por pouco; segurei-o pelos lados e o deixei de ponta-cabeça; saltei rodopiando de forma tão frenética que o vento se aqueceu ao redor, deixei-me cair com o crânio dele contra o meio fio. Respiramos. A igreja da Candelária, sua arquitetura angulosa, formando um compasso azul e branco no entroncamento das avenidas, suspirava sobre nossa vitória parcial.

***

— Você parece um José Deodato – sorria-me Hinagiku.

Era uma referência ao meu gosto pela leitura. Na sua cidade natal, esse José abarrotava a sua casa de jornais, revistas e livros; de tanto ler, teria ficado doido. O comentário foi feito após comermos em um dos furgões de lanche da Guilherme Cotching (na sua lataria havia sido pintado um grande cachorro-quente e, ao seu lado, um “R$1”) e depois de termos, quando caiu a noite, armado nossa tenda na praça Santo Eduardo. Os bares e lojas emitiam de portas e janelas uma forte luz amarela, eu me acomodei embaixo de um poste no qual duas cobras de metal entrelaçadas abriam as suas bocarras abaixo da lâmpada cilíndrica, e retirei da nuvem de Hermes alguns volumes que trouxera para me entreter: O Menino no Espelho, do Fernando Sabino, e várias edições do Asterix. Gostava de me ver lendo, Hinagiku “sabia” que era importante, mas não entendia realmente por quê.

Antes de dormir, criamos juntos outra história. Era uma vez a onça e o gato acordam e percebem que têm os rostos trocados. Os pelos cinzentos de um terminavam na cabeçorra parda-pintada da outra. O corpo branco em baixo, preto e amarelo-sujo em cima acabavam na cachola acinzentada inapropriada. Só pode ter sido o Mago, raciocinaram, pois que era o responsável típico por tudo que fosse maligno naquelas redondezas. Quem mijou na caixa da água? Não tenha dúvida. Quem passou o dedo na bunda e botou pros outros cheirar? Era batata. Partiram em direção ao castelo do vilão — como de praxe, ultrapassaram vários episódios menores, ao longo dos quais reuniram habilidades precisas para sobrepujá-lo e se completaram de autoconhecimento; porém que tédio percorrer essa patacoada toda — aos finalmentes: a propriedade encoberta pela noite, olham os dois pela janela e a boca dos dois despenca. O Mago está lá dentro, e perpetra algo atemorizante.