Início » episódio 12 – Alguém Chegou Primeiro

episódio 12 – Alguém Chegou Primeiro

Minhas pernas doíam quando enfim chegamos à avenida Morgan Dias de Figueiredo e avistamos um quartel militar: suas instalações eram caixas retangulares de concreto, ladeadas por um amplo estacionamento, isoladas por grades — e coalhadas de corpos caídos. Às dezenas, desmaiados ou mortos, ocupando os espaços entre os carros; tanto os cruz-caveira (desde os inúmeros rapazotes baixinhos com capacete, suspensório e granadas até os magrelos com tacos e roupas de baseball, cara coberta por máscaras do Jason) quanto soldados idênticos coloridos de musgo e bordô. O Jade havia sofrido uma imensa derrota. Algum daqueles “como nós” não pudera ser submetido.

— Quem fez isso – alertou-me a minha companheira – é quem temos de eliminar.

Adentramos o complexo militar, engolfados pelos cheiros de sangue coagulado e carne queimada, e caminhamos tensos pelos arabescos dourados de um tapete de veludo azul que se estendia sem interrupções pelo piso verde como as paredes. Em ambos os lados do corredor, espaçadas por uns poucos metros, havia vitrines nas quais estavam expostas armas de alta tecnologia e mechas com o porte de rinocerontes e a altura de dois homens. Ao chegarmos no elevador, tivemos de retirar a pilha de cadáveres que estava lá dentro para poder usá-lo. Eram bem uns quinze anões de longas cabelereiras brancas e espetadas. Apertamos o botão, e a subida foi vagarosa, silenciosa demais.

As portas se abriram com um solavanco seguido de um longo rangido gemente. Estávamos no que parecia ser uma prisão. Algumas paredes de pedra estavam quebradas e os destroços bloqueavam parcialmente o caminho. De canos estourados pingavam incômodos. De súbito, um movimento se deu na sombra de uma cela; quando nos viu, correu até a porta, segurando esperançosamente as grades. “Hinagiku! Hinagiku!”, ele berrava. Ela chegou à sua frente: “Foi ele, não foi?”. Pondo o pé na barra inferior, por conforto, ele assentiu: “Sim. Veio até mim. Escapei de enfrentá-lo”. “É ótimo que tenha escapado de enfrentá-lo”, Hinagiku rosnou, “pois em breve teremos de enfrentá-lo”.

***

Embaixo da boina cabelos e barba atingidos pelo tempo, mas tingidos de preto bem forte. Na sua boca faltavam alguns dentes da arcada inferior e o seu rosto era bastante magro, não obstante ali havia uma vitalidade encrustada e ainda potente, o fóssil de uma força. Shukun tinha sido aluno de Hinagiku. Contou que há algumas semanas o Jade tomara controle do local. Haviam dito a ele que logo seria transferido, que as acomodações seriam agradáveis, que eles atuariam para preservá-lo. “Podem me deixar aqui, eu falei, que estou acostumado.” Estava mesmo: inclusive quando houve a invasão já estava preso naquela cela. Não o capturaram: levou-se lá por comportamento irregular.

Não fora a primeira vez. Nesta, aconteceu por dois motivos. Primeiro, recusara-se a lavar banheiros quando um oficial lhe ordenou fazê-lo; se escondeu até a obrigação baixar. Conspirou: “Eu sou armeiro, tomo conta das armas — vou limpar banheiro? Cada banheiro grande. Vou lavar banheiro pra marmanjo?”. Segundo, comera balas. Um tenente atirou ao alto um pacote inteirinho, e a tropa urubuzou pra cima dos doces. Vinha vindo o comandante e não estimou a pândega. Shukun foi posto no cárcere por três dias, para dividir uma cama no chão com os ratos, sem comida. No dia dois da punição, o Jade invadiu o local. “Fiquei aqui desde então, até que Kachiaru veio e matou todos.”

***

Encolhido na cela, Shukun soube que ele chegara: no interior da sua psique acendeu-se um ardor, um faroleiro — o pressentimento da imensa energia que se aproximava. Depois disso, a batalha se denunciou pelos ruídos: o estouro nos canos dos tanques, o estrondo de um milhar de granadas, a polifonia de metralhadoras, escopetas, espingardas e revólveres. Os gritos de fúria e desespero do exército. Somente o Qi poderia feri-lo, pois do Qi ele extraía uma força e resistência descomunais. Longos minutos de silêncio e fumaça se sucederam. Ouviu então pés chapinharem na água, passo a passo até estarem bem em frente ao quarto em que estava. Olhou nos olhos de Shukun através do escuro e da fuligem. Via-se em seu semblante o conforto beligerante dos sabe-tudo. Um sorriso no canto da boca encimada pelo bigode bem aparado, um jeito de ver os outros de cima ou à frente. Deixou sua maleta executiva no chão. Abriu a cela com a mente. Disse: “Venha aqui”. Shukun foi.

O homem tirou do bolso da camisa de botão o pacote de Derby azul. Acendeu um. “Estou à procura daquelas tais esferas do Dragão. Sei que você tinha uma, sei onde a havia escondido. Mas não pude encontrá-la. Vim até aqui para arrancá-la de você, porém fiquei sabendo de algumas coisas… achei mais divertido adiar essa provisão. O fumo branco se espraiava da sua boca. “Se quiser, sei como é você, podemos lutar agora mesmo, mas seria um estorvo um pouco maior”. Shukun respondera, de acordo com ele: “Também posso esperar. E aviso que você pode não ter tanta sorte como da última vez”. “Sorte?”, o homem tirou o cigarro da boca e o ofereceu ao soldado, “isso não tem nada a ver com sorte”. Pôs nos lábios, tragou; a nicotina dissipou-se ao pulmão e daí carregou o desafio à corrente sanguínea. Shukun fumava, compenetrado.  O invasor, enquanto saía, exclamou:

— Diga a Hinagiku que eu sei que está vindo. Eu a aguardarei no torneio.

***

“Depois disso, voltei à cela e aguardei, porque sabia que você viria.”

Shukun — suas mãos enluvadas de couro com os dedos cortados — tamborilava na grade. Ombros largos, magro e forte, camisa branca com uma larga faixa azul no peito, boné preto para trás, cinto de guarnição. Sua voz grave aliava-se a uma oratória convicta e assertiva para emular a força ou a impostação de força que representavam o par de revólveres com os quais estava armado. Porém seus olhos exibiam uma mistura de cansaço e opressão, como se sob um cerco longo demais, sem fim à vista, plácido. Deixamos as celas, ele se armou o quanto pode, e partimos.