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13 – Esfera de Uma Estrela/Barrabás

De tudo, ao menos para mim, uma boa notícia: nosso companheiro recém-chegado sabia onde outra das esferas se encontrava. Pedi que me levassem até ela, que me deixassem tê-la. Aceitaram.

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A linha dourada de Néfela marcava o céu nublado bem acima de nós. Por três dias viajamos até o ponto onde Shukun escondera a esfera. No caminho, ele me ensinou Freecell. No jogo, as cartas são dispostas em colunas aparentemente caóticas, mas que compõem uma ordem dissimulada. Carta a carta, é preciso desenredá-la, até o ponto em que se hierarquizem todos os grupos possíveis do rei ao ás. É evidenciado que há um meio de vencer — a derrota só vem do acúmulo sucessivo de falhas. É preciso formar pequenos clusters de organização enquanto não se pode mais do que isso, notar e libertar tão logo quanto possível unidades cruciais. Pode-se mover cartas entre colunas, o que se dá com muitas limitações (pois um três vermelho só se casa com um dois preto, e às vezes não temos oitos para os noves), e pode-se “suspender” algumas, até quatro delas, deixando-as de molho nuns espaços acima do tabuleiro. Assim se tira um cinco ou um sete problemáticos do caminho, assim se têm fôlego para movimentar e sanar. Meu companheiro me instruiu sobre o método — que consiste na análise cuidadosa do contexto, na escolha ponderada da tática — engordei meu orgulho partida após partida, assim que deslindava as lógicas. Não tive chance de lhe demonstrar agradecimento — não tanto pelas lições, mas por um meio simplório de vez após vez me descobrir capaz da vitória.

“Cuzão!”, Shukun me chamava assim, fazendo piada com a sonoridade da francesa “cousin” (éramos “primos”, discípulos da mesma mestra), “venha pro exército. Com faculdade, você já entra tenente”. Precisava de algo em que se enxergar, às vezes pensava que podia fazer de mim esse algo. Eu negava preguiçosamente. Preocupava-se que o Jade parecia tomar o Estado; será que a guerra estourava ao longo do país? Se isso era fato, não se entendia desertor: somente tinha tirado uns dias de folga… e disso ria malandramente. Havia dureza e malemolência nele, uma força fluída de jogo de cintura.

Todas as noites nos contava histórias, antes e depois de termos recuperado a esfera. Tinha de bater nos presos nas solas dos pés porque não deixa marca. Ou com as mãos em concha, estapeando ambas as orelhas. Crueldade e riso se mesclavam no seu discurso, justificada a mistura na medida em que os atingidos estavam abaixo da linha de consideração, como que fora do que é o humano. Além disso, a mistura se alimentava dos prazeres orgásmicos do agir sobre as coisas. O júbilo do demiurgo, o privilégio do escravo hegeliano. Uma centralidade de si cuja consequência é que não respeitasse verdadeiramente qualquer autoridade, seja secular, seja espiritual. Dois exemplos: um general ou algo assim lhe ordenou policiar tal passeata, onde era possível que sua irmã estivesse — formulara silente e rebelde o que agora conta: ”Se mandasse atirar no povo, a gente virava e atirava nele”; um trabalho de macumba lhe havia causado incômodo ou dor, encarcerou a pomba gira em um pedaço de papel e atolou em uma parede, onde o espírito permanece até hoje. Sou eu que atuo, você atua por meio de mim, é o que esses contos dizem, eu te obedeço apenas quando me obedeço.

Certo dia, escutou barulhos no telhado de casa. Prendeu a arma às costas, no elástico da bermuda. Saiu, e nada. Mas, em outro dia, ouviu da rua a bagunça: tinham pego um sujeito e o acusado de roubar a vizinhança. Shukun descobriu nos objetos “confiscados” do ladrão ferramentas suas. “Você roubou a furadeira que era do meu pai, seu filho da puta?” — narrava, e me olhava nos olhos, sua córnea sanguínea — “Virei um direto no nariz: a geleia escorreu. Depois veio a mãe reclamando. Reclamar do quê? Quer ser presa por desacato?”.

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Um homem põe o indicador no canto entre o olho e o nariz, levanta a pálpebra com a unha e enfia — o dedo dói até o fundo, se lambuza de humor aquoso, forma uma pinça e arranca. Na palma da mão a bolinha branca continua vendo como se nada. Meu avô me narrou a história de Barrabás, o homem que, por acaso e política, carisma insuspeitado e intemperança das massas, sobreviveu em lugar do Cristo e, por isso, foi condenado por deus a viver para sempre. Penso nele e vejo Anthony Quinn, barbado, com vestes sujas, intocado pelas décadas e séculos, exausto de tudo. Ele levanta o rosto pedinte para os céus, pede perdão e arrego, morre. Mais do que reparar na arbitrariedade da deidade cristã — who would wanna be such a control freak? — o que me marcou mais foi essa imagem da vida inflacionada, milhões em notas sem valor. Era possível não querer estar aqui, tudo dependia das condições corretas. Outro personagem bíblico punido com a vida é Caim. Assassino de seu irmão pela paixão que a sujeição a deus lhe impôs, foi marcado na testa para colher apenas a indiferença das gentes, e imortalizado para que vagasse sem fim. Que eu saiba, nunca se dobrou ou foi indultado; e narrativas fantásticas o descrevem como pai de vampiros. (Penso nisso e me lembro de Brad Pitt sugando ratos num pardieiro.) Crimes mais simples, como os de Sodoma e Gomorra, ou de todo o planeta, no caso de Noé, recebiam veredictos mais simples: o genocídio. Barrabás e Caim granjeiam a punição máxima, que, paradoxalmente, se identifica à glória máxima. Não é o que fundamentalmente esperamos do paraíso? Jamais morrer? Viver para todo o sempre. Um homem caminha entre camas de metal onde cadáveres com sua face e corpo se estiram. Eles têm os olhos fixos no teto e respiram asmáticos apesar de mortos. O homem arranca suas unhas e elas continuam crescendo, como fungos; extrai seus corações e os chuta no assoalho, eles seguem pulsando combalidos. A redenção é uma irmã oblíqua do suplício? Dir-se-á: é a presença de Deus o que concede à vida valor; é ela a Glória a transfigurar a água em vinho. A condenação verdadeira de Caim e Barrabás é a eternidade sem divindade; o paraíso é a fraternidade inerte no seio da Luz. (Em Amor Além da Vida, os campos elísios a que chegamos são universos particulares; a potência criativa total nos é entregue como um brinquedo, e podemos fazer mundos de tinta ou de dor. Já outra proposição, de origem não identificada, diz que, quando morremos, podemos escolher que partes do nosso percurso queremos reviver, todas elas executáveis novamente como filmes numa prateleira.) Que seja: o aprendizado básico continua o mesmo: a vida é vazia de valor, de que vale então, de nada, a vida é contexto. Quem, como, quando, onde, por quê. (Criança, li um conto em que um rei ouvia duas profecias iguais. Ambas lhe garantiam uma vida extremamente longa, mas o primeiro profeta sublinhou o que havia de sombrio nisso: ele assistiria à morte de todos os seus. O segundo disse que estaria presente para alegrar-se com suas alegrias e para apoiá-los na tristeza. O primeiro foi enforcado; o segundo, festejado.) Consideremos Lázaro. Jesus se depara com o seu funeral e o convoca de volta à vida. A questão é que ele teve a sorte de ser ressuscitado no estado que conhecia e amava — em meio à sua família e amizades, no seu tempo. E nós? Se no pós-vida tivéssemos algo que nunca tivemos e nunca esperamos. O evangelho: a novidade — ainda assim, bênção, ainda assim, vida? Uma mulher grávida desparafusa a barriga inchada e retira o bebê lá de dentro. Desenrosca dele o cordão umbilical e o passa a outra mulher, que o reenrosca e o põe no próprio útero. Qualquer ideia de imortalidade dessignifica as palavras “morte” e “vida”. Passam a descrever ambas a mesma linha, interrompidas por um corte mínimo, diferenciadas pelos tons de cinza com que são pintadas. O que se faz na morte é viver. O que se faz na vida é morrer. Barrabás frui um alívio intenso e curto, então desperta, vivo outra vez, noutro lugar. Qual não foi a angústia que sentiu quando soube, definitivamente, que não podia escapar, todas as saídas eram entradas. Kierkegaard demonstra que a provação de Abraão é suprema: teve de percorrer a extensão inteira do amor pelo filho e se dispor a assassiná-lo quando chegou ao ápice. Mas essa provação é frívola, na medida em que, sendo as almas imperecíveis, ninguém criado jamais morreu ou morrerá. Tudo, no máximo, retorna ao puro potencial, à esfera escolástica da qual a criação emana. Não existir, o que seria isso, essa sim, íntegra novidade; podemos, próximos de Heidegger, pensar-nos no nada?  Deus, acima de todos, está encarcerado na existência. O onipotente pode matar a si mesmo? Pela vontade impossível de poder não ser, para degustá-la, crucificou-se Jesus?