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episódio 14 – 32º Torneio de Artes Marciais

Na Escola Estadual de Ensino Fundamental Julio Maia, a plataforma de pedra sob o sol do meio-dia era uma retângulo de luz branca ardente. Seria o cenário principal das batalhas. Políticos e ricaços, celebridades e jornalistas empesteavam por ora esse espaço, conversando e bebendo em volta de uma mesa coberta de tecido vermelho onde estava depositado um troféu dourado e delgado, com a caneca no topo pouco maior do que o necessário para abrigar uma bola de tênis. Esconsa por um pano preto, estava ali colocado o prêmio pelo qual eu tinha vindo, a esfera de cinco estrelas.

Subdividiam a plataforma vários ringues menores. Dezenas de inscritos decidiam seus destinos nas partidas classificatórias. Eu estava entre eles, e lutei bem. Ao nosso redor urravam as arquibancadas, buzinas desritmavam o tempo, papeis coloridos picados esmigalhavam o espaço. Sobre as amuradas do estádio, vigiavam os soldados do exército Jade — coletando dados, definindo perfis, projetando a prisão dos desviantes que ali se destacassem? Fui informado: nunca antes havia se imposto uma influência exógena no campeonato, que era uma instituição tradicional. Isso significa que o poder do Jade havia crescido. Com efeito, segundo rumores, o número de prisões subia exponencialmente (foram de centenas a milhares os que eram levados ao Sanatório Jade — era esse o nome — todos os dias). A iminência do fim cada vez mais intensa, os militares explicavam: tinham de se aguerrir.

Os gritos de apoio e a cantoria do público não deixavam meu temor pelo que pudesse acontecer se apoderar de mim. Eu tinha veleidades de ser não mais que um show; atender às suas expectativas, transbordá-las, excessivo de tão adequado, surpreendentemente hábil segundo os critérios alheios. O Jade podia prender-nos, preservar-nos — esse momento de aclamação faria tudo valer a pena.

Ao fim da tarde, haviam sido escolhidos os sete atletas do 32ª Grande Torneio de Artes Marciais. O número seria completado pelo vencedor do campeonato anterior, que ainda não tinha chegado ao local. Os fogos de artifício irromperam no céu arroxeado. Agora a plataforma estava vazia de gente. Nós os selecionados ficamos ombro a ombro, quatro de um lado da mesa de coberta vermelha, três do oposto. Hinagiku e Shukun estavam lá. E, surpreendentemente, Hikari. Trombetas anunciaram a vinda de pessoas com importância, e assim reencontrei o deus: Hermes, jovem vestido à grega, nos pés sandálias simples, pequeninas asas nascendo diretamente da carne, pisou macio a pedra até se colocar atrás do troféu, suas mãos brincando com as rendas da toalha rubra. Eu o fitei, sedento; não me deu atenção. Ao seu lado, se colocaram seus filhos Abderus e Palaestra. Os três, juízes.

Certo nervosismo coalhava a cerimônia. Claramente porque não podiam dar início aos trabalhos se o número de combatentes não estava ainda completo. Isso não foi um problema por muito tempo. Logo notamos uma movimentação afobada entre os funcionários do Jade. Os militares corriam com suas metralhadoras pelas escadas, saindo atabalhoados pelas portas de emergência. Em silêncio, a multidão dentro do centro esportivo acompanhou os ruídos externos de uma pequena guerra. Em não mais que quinze minutos tudo cessou. Nesse momento, ele entrou. Em uma mão, uma maleta executiva preta. Na outra, uma cabeça arrancada e sangrenta, segurada pelos cabelos. Sem pressa, andou passo ante passo pela nossa apreensão e subiu à arena; deixou o cadáver defronte ao prêmio, os olhos arregalados sob a esfera recoberta; dirigiu-se a todos em voz desapaixonada:

— Não suportaríamos não ser chefes de nós mesmos, não é mesmo?

Pé ante pé sobre o nosso orgulho, posicionou-se no seu lugar na fila. Não pude olhá-lo nos olhos. A minha mirada se prendeu ao chão. Nos seus sapatos sociais. Manchados de lama e vida subtraída.

***

Hermes passou as mãos pelos seus cabelos loiros e colocou os óculos escuros como se fizesse parte de um episódio do CSI: Miami. No telão, a câmera fez um close veloz no seu rosto quando ele tomou o microfone e anunciou as batalhas que se seguiriam nos próximos dias, em três rodadas de mata-mata — quatro contra quatro, dois contra dois, um contra um: na sequência, Hinagiku versus Hikari; Jintoku versus Shiawase; Shukun versus Kachiaru; Kurokun versus Kyua. Estavam abertos os jogos.