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15 – Paz Passivo-Agressiva; Desconsolos da Vontade de Potência

Conversei com Hikari antes que ela subisse à arena para enfrentar Hinagiku. Disse-me que era difícil se concentrar no plano, focar na derrota de Kachiaru, porque desde que nos separamos estivera em busca da mulher que entrevira sob o impacto da esfera de quatro estrelas. Estava obcecada. Achava pistas da fugitiva nos livros que lia, nos homens a quem dava sustento (“a quem eu sirvo de terceira perna”, explicou) e, fluxos da vida, a quem chegava o momento de ter de abandonar, no sucesso do trabalho, no tédio dos televisores. “Em você, inclusive”, concluiu, súbita, “sinto que poderia seguir pelo seu rosto até achá-la escondida. Esquisito. Será que eu devia não ter dado a você um nome?”.

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Colocaram-se então frente a frente. Sua luta consistiu numa troca de mansidões esquemáticas. Isto é, não propriamente se batiam uma contra a outra, mas apresentavam uma coreografia: os ataques e contra-ataques se mantinham, inofensivos, em momentos destinados a ataque e a contra-ataque. Não há violência, no sentido fundo da palavra, se a violência foi absorvida pelo rotineiro. O público certamente não notou que se tratava não de briga, mas de dança, como eu percebia facilmente por

tê-las visto lutar antes, por ter treinado sob a mesma tradição delas. Nos golpes eu via signos sabidos por nós três; se voava o hanbo na mandíbula de Hinagiku, a postura do corpo de Hikari, a força que aplicava no golpe, a inclinação e a velocidade da arma indicavam à oponente como responder. Se a minha mestra não se defendia com destreza desse avanço — de que, eu sei, ela seria capaz — claro me parecia que o objetivo era receber o impacto no antebraço, recuar destrambelhada três passos e abrir a guarda para a violenta pancada no estômago. Performava essa fragilidade.

Às vezes, porém, algo no comportamento de ambas desmentia essa teoria. Por exemplo: Hinagiku estando ajoelhada, Hikari correu em sua direção com o hanbo erguido como um machado. Zumbiu o cilindro no ar conforme despencava com truculência, mas só estilhaçou a pedra. A velha se jogara em uma cambalhota para trás e caíra de pé. Os movimentos surpreenderam as duas e a mim: eram criativos, divergiam pequena porém significativamente do ritmo que pretendiam. A expressão que restou nas suas faces — um desagrado no canto da boca — provava que sabiam o que tinha se dado. Um burburinho na barriga do orgulho alertava que não conseguiriam fingir por muito tempo ou que não conseguiriam fingir o tempo todo. Sobrepunha-se a elas uma vontade de fruir a superioridade. Por tudo isso, alternavam-se na partida surtos de agressividade e retraimentos simpáticos. Era uma conversa. A um bem-vindo contrapomos um obrigado, esgrimamos bons-dias, preemptivamente a debelar a ameaça possível do outro, torcendo tons de voz, contendo-se, deixando-se levar.

De todo modo, conseguiram manter o estratagema que eu supunha (com razão) estar em jogo. Com um chute no queixo de Hikari — que se fazia parecer atrapalhada ao manusear as cartas mágicas — Hinagiku abriu espaço para lhe dar um, dois, três socos no peito, girar no próprio eixo e virar a mão fechada na nuca da adversária, que tombou com o nariz no chão. Grand finale.

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— Como funcionam as esferas do Dragão?

No telão, a cada luta, eram exibidos programas variados sobre o torneio. Neste, agora, um jornalista da NNS de olhos vidrados e gravata lilás, conversava com um acadêmico de cabelos azulados e óculos redondos, que cofiava volumosos bigodes cinéreos: “A reunião dos orbes permite enxergar o que seja o superholograma de Michael Talbot. A ordem implicada de David Bohm é descortinada, a estrutura generativa por trás do tempo e do espaço se dá a conhecer; mesmo nossa identidade é dissociada em onipresença”. O repórter coçou a cabeça:

— É possível dizer que o detentor das sete esferas se torna onipotente?

O pesquisador era magrelo, usava um jaleco branco e uma camisa polo verde-água. “A onipotência que se prova factível não é individual, mas os poderes manifestos de uma rede complexa, a potência de um todo, porém um todo fractal no qual cada parte é potente. A onisciência são os variados pontos de vista dessa rede, coordenados a uma só vez sobre o objeto em questão (para utilizar o exemplo clássico, é como se víssemos o aquário e o peixe por todos os ângulos e em todos os seus presentes). É nesse cenário em que um gesto de vontade pode deslocar um fragmento no núcleo da discreta ontologia de processos e gerar basicamente qualquer efeito desejado (são essas as ocorrências traduzidas por visões ingênuas como realizações fantásticas de desejos)”.

O entrevistador recuou a um silêncio desarmado. O doutor, constrangido, resolveu acrescentar algo à guisa de esclarecimento: “Seguindo a terminologia de Alfred Whitehead, se trata, cada esfera, de uma entidade atual ou de uma ocasião atual…”.

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Míope como Miguilim, óculos de grau Wayfarer tipo Morrissey sobre bochechas cheinhas de sardas — leve, contente, aberta ao mundo e frágil como Miguilim, mas isto eu saberia só depois. Seu rosto era uma clareira em meio a volumosos cabelos lilás-escuro encaracolados — seu rosto me seria uma clareira: eu soube de imediato? Yes, I’m sure it happens all the time. Shiawase.

Shiawase punha o pé nesse local em que o destino se decide no soco em estado de paradoxo: era e não era feita pra isso; era dona de um poder e de uma timidez, de uma vontade de concórdia prenhe de calma e preguiça atravessada por anseios de explosão. Feito Perséfone, excedia-se ou minguava-se. Jintoku — gordo de pele rosa choque, calças brancas bufantes, colete preto sem camisa, no cinto o emblema do leão da tribo de Judá e, dependurada, uma espada de samurai — era similar. O que em si era potência tinha pouso na firmeza, no descanso, no estabelecido. Nessa tríade naufragavam o original e o individual nele. Isso, também, somente descobri mais tarde, quando viajávamos, como ele me descreveu, “na direção do fim de tudo que existe”. Agora, o que via era a sua famosa katana de fio invertido (pois não queria ferir de morte ninguém) chocar-se rutilante no rosto da mulher.

O ruído duro e agudo do impacto de metal contra metal demonstrou que ela não era uma menina trivial: Shiawase era um androide. A contusão arrancara a tinta bege da sua bochecha, deixando ver o ferro. Ela parecia furiosa. Tomou impulso (passinhos para trás), correu em enorme velocidade (os braços abertos de um jeito engraçado) e saltou; furou horizontal a distância como um homem-bala. A cabeçada atingiu o peitoral de Jintoku com um baque seco e fofo. Ele foi impulsionado por metros, suas botas douradas (como as luvas) abrindo trincheiras na plataforma; manteve-se de pé. Sua rival, apaixonada pelos resultados da própria força, avançou. Desviou de um soco alto, sustentou-se em uma perna e, com a outra contraindo-se e estendendo-se velozmente, despejou uma sequência de chutes no oponente. Que foram absorvidos dezena a dezena. Era como bater num saco de algodão.

Ofegante, ela parou. O corpo de Jintoku ficara todo deformado: estava cheio de crateras nos pontos onde havia sido atingido, fora modelado como massinha. Sua carne molenga amarfanhada retornou aos poucos à normalidade. O monstro sorriu com todos os dentes; abriu o bocão e exibiu a língua, movendo as mãos zombeteiramente, uma de cada lado da cara. Ela também abriu a boca. Do fundo da garganta de Shiawase surgiu uma luminosidade e, à queima-roupa, ela disparou uma torrente de energia. Jintoku ainda resistiu no mesmo ponto por alguns segundos até ser atirado além da arena, fora dos limites regulamentares. Enquanto a moça dava pulinhos de comemoração, ele lamentava a derrota na grama, soltando fumaça raivosa por uns buracos que lhe vazavam a periferia da cabeça.