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16 – Expressões Hereditárias da Força; Enfeitar-se de Dor

“Não se exceda”, aconselhou Hinagiku ao pé da orelha de Shukun antes do início da luta, mas ele só ouviu a sua própria fúria. Nem mesmo deixou o juiz acabar de abrir o combate. Sacou de cada flanco do corpo uma Beretta M9 e as descarregou sem pausa. Os olhos do inimigo sorriam sobre o bigode ralo. Sob o som dos tiros, deu-se tempo para aspirar a nicotina. Depois sua mão e o cigarro entre os dedos indicador e médio se diluíram em manchas de cor bege e branca no ar. Trinta disparos após, Kachiaru caminhou devagar até o seu oponente, estendeu o braço e dispôs a palma para baixo: uma série de pequenos objetos metálicos tombou à pedra.

— Não se pode fugir de um estorvo para sempre. Vamos lá.

O berro de Shukun estremeceu o estádio. Correu na direção de Kachiaru, tentou um gancho — mas atravessou o adversário; só o vulto dele, persistência de sua imagem na vista, foi atingido. Sua falha lhe seria cobrada logo: um forte chute nas costas o arremessou contra o solo. Levantou-se, furioso, nariz estourado, supercílio sangrando. Gritou outra vez, chamando-se. Convocando a raiva dura que sempre lhe é disponível, que aquece subrepticiamente o seu olhar triste. Ali eu vi que a sua vanglória e sua cólera recobriam translúcidas sua fraqueza, a qual eu não hesitaria dizer que consiste em uma necessidade de amor tantas vezes disfarçada ou tantas vezes realizada somente de forma oblíqua ou opressa que esqueceu seu nome. Cuspiu um dente. Voltou à carga.

Mas era como se todos os seus golpes fossem previsíveis. Mais do que isso, como se Shukun tivesse aprendido todos eles com Kachiaru, e este se entediasse frente a uma sombra de si. (As gerações se sucedem na manutenção da violência mais do que na divergência em relação a ela; assim, se de um pai se conhece que cintava as pernas da filha, usando o lado da presilha, listrando as suas pernas de vergões ensanguentados, porque voltara tarde demais de uma noitada, é consequente que, do filho, se conheça que haja martelado a mão da filha, neta daquele, porque ela havia roubado o boné de um cretino). Shukun estava sendo ridicularizado. Ofegante, não fazia mais que golpear e perder.

Uniu por fim as mãos em um pseudorevólver. Da ponta dos dedos indicadores uma luz branca vibrou por um instante; agigantou-se de repente e foi disparada, um meteoro de energia. Kachiaru cruzou os braços diante do rosto e foi engolido por ela. Ainda estava lá quando cessou. Fumegante. Andou devagar até um Shukun exausto e paralisado, mantendo ainda, mas molemente, o mesmo gesto; o segurou pela nuca e lançou sua testa contra o próprio joelho. Então acabou.

***

Caminhando em um cenário feito por computação gráfica, a jornalista apontou para as imagens que apareciam ao seu lado sem tirar os olhos da câmera, por vezes passando os dedos pela franja do seu cabelo curto (penteado para a direita, de modo a deixar o lado esquerdo da testa visível). “O atleta se submeteu por meses a uma gravidade cada vez maior”, ela explanou, conforme cenas de arquivo se sucediam, “gradativamente, todo gesto se tornava mais difícil, mais demorado. Até que a barreira era ultrapassada e o sofrimento antigo evoluía ao novo normal”. Via-se um lutador de roupa laranja e azul escura fazer flexões com um braço só sobre um chão quadriculado vermelho; a estrutura em que estava era circular e feita de metal; através das janelas redondas um negrume tremendo. “Feito isso, quando o atleta retornava à gravidade com que estamos acostumados, sentia-se leve, imaterial quase. Nós o assistimos golpear com impossível velocidade — mas ele está somente se aquecendo, poderia fazer bem mais. Ele superou a normalidade, superou o limite”.

Ajustou a franja à direita, continuou: “Temos como compreender a grandeza? Não, e precisamente porque a vemos como ‘grandeza’. A grande força, a grande inteligência, a grande destreza — todas são ‘grandes’ para nós que as medimos segundo nossa força, nossa inteligência, nossa destreza. O que dizemos da excepcionalidade quando, no fundo, a descrevemos no sentido de um ‘essa pessoa é mais forte do que eu, mais inteligente do que eu, mais hábil do que eu’? Pouco mais ou nada mais que ‘sou limitado, sou limitado, sou limitado’. Para compreender a grandeza, temos que saber como é que uma normalidade se converteu noutra normalidade. O corolário disso é que jamais devemos buscar o poder: devemos buscar como tornar o poder trivial”.

***

I knew right away he was not ordinary. Cabeça raspada à navalha e nela se ramificam cicatrizes feito fractais. Rubros olhos que amam o caos como a um filho. Nas costas, a espada Kusanagi. Kyua. Antes que o sinal de início tocasse, ele andou até mim, me cumprimentou e murmurou:

— Eu quero que você me golpeie o mais forte que puder.

O que? Certamente era o que eu pretendia. Afastou-se sem mais explicação. O juiz deu a permissão. Kusanagi riscou veloz o chão, as duas mãos em seu punho; a ponta da lâmina na pedra foi um longo som azulado contrastado pela rítmica das passadas. Parei a espada com as palmas nuas, uma a cada lado. Fervente, a lâmina queimava ao toque; endureci a mandíbula e resisti. Kyua empurrava a arma contra mim. Cada vez mais próximo. Olhávamo-nos olhos.

— Eu não quero morrer sem cicatrizes. Me golpeie! O mais forte que puder.

Afastou-se em um salto, apenas para tomar novo impulso de ataque. As cicatrizes no seu crânio — eu só podia pensar, você já tem tantas! — ardiam avermelhadas. Duas, cinco, onze, vinte estocadas, o metal foi, voltou e reincidiu, dança irregular. Eu desviava o mais rápido que podia e parecia salvar-me de ferimentos pelos erros eventuais do meu adversário… até que percebi que não se tratavam de erros. Kyua deliberadamente continha-se quando percebia que eu estava indefeso. Fingia lutar à sério — para a plateia, para os juízes — talvez —, mas mirava outro tipo de conquista.

Sem a decadência do vencer ou perder, só o conflito debilitante e intenso; os músculos extenuados, as têmporas pulsando de dor, o suor uma atmosfera — eu soube que adorava aquilo. Engajados no mesmo fruir da força e do saber, eu sentia que construíamos uma espécie de fraternidade. Éramos, Kyua e eu, irmãos. Expandi o Qi em uma onda de energia que o desestabilizou. A sua guarda aberta, dei-lhe uma sequência de socos, esquerda, direita, esquerda. Cambaleante, deixou cair a espada. Eu a tomei, girei em meu próprio eixo e lhe rasguei a cara da testa ao lábio.

No chão, o rosto lavado de sangue, Kyua gargalhava:

— Sim. Esta aqui é nova!

Antes que o juiz anunciasse uma vitória, ergueu-se e fez a única coisa que acarretava o fim das lutas além de inconsciência ou morte: abandonou a plataforma.