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17 – Violências do Afeto; Histórias de Amor, ou: Romantologia

Perséfone, eu a chamei antes de Perséfone, não? Um recurso retrospectivo: foi ela própria, alhures, quem se referiu a si sob essa metáfora. Mas que me significasse algo… isso se deve talvez a que em mim houvesse o signo de Hades, a quem me apegava. Não pelo desejo do rapto, porém pela vontade de ser descoberto na sombra. Sim. Que me raptasse a Perséfone verdadeira, e que consigo eu viesse a conhecer — para além da estação única do mundo inferior — as primaveras, os verões, e, também, porque não mais que humanos, os outonos e os invernos (Can´t stand the morning rain? Can’t stand the blazing sun?). Shiawase e eu nos digladiávamos na plataforma. O sol das quatro queimava.

Algumas dezenas de minutos luta adentro, identifiquei alguns padrões no estilo de luta de Shiawase. Agia dentro de um procedimento; qualquer interrupção levava a um momento de confusão, no qual ela tentava encetar alguma outra estrutura de ação. Era um chefão de jogo de plataforma: bastava rememorar os seus ciclos de atividade e enxertar os contra-ataques nos vãos da sua personalidade. Atingi-lhe diversas vezes por meios similares: disparou contra mim, com os braços abertos, correndo aviãozinho; aguardei o soco, me abaixei e retornei já com o gancho no queixo; assim que ela subiu alguns metros, saltei, juntei as mãos num globo e lhe mandei abaixo. Os choques explosivos da sua carcaça metálica contra a pedra soavam como acidentes de carro. Ou: tentou incinerar-me como fez com Jintoku, mas era simples escapar do seu tiro de boca, retilíneo e compacto; nos segundos após usar o canhão, ficava frágil, resfriando; aproveitei-me e lhe meti uma sequência enorme de murros na boca. Vários dentes de metal dispersaram-se à nossa volta.

Shiawase era linear, da intenção à execução (o que é chamado caráter no trato ético e fraqueza na batalha). Era uma guerreira sem ferocidade: a briga não a movia, não era o seu primeiro recurso — a cada bloqueio, a cada investida falhada, a cada dano sofrido, tinha de se mobilizar para a briga, de uma maneira envergonhadamente consciente. Ora, Hinagiku fizera-me para a fúria: eu só conseguia compreender Shiawase como débil. Quanto insulto ela engole até que descortine a sua raiva? Passei a querer saber qual era o gosto da sua violência, este sinal de vida. Intensifiquei meu Qi e lancei uns trinta corpúsculos energéticos contra ela. Ela driblou quantos pode, mas a maioria arrebentou sobre si em nuvens de fumaça luminescentes. Arranquei-lhe um olho.

A vitória tão próxima: me sentia sujo, me sentia lindo. A arrogância abriu minha guarda. Quando dei por mim, Shiawase tinhas as mãos no meu pescoço, esganava. Minha boca entreaberta, pegando ar nenhum; pingava na minha língua o mercúrio líquido que escorria do buraco que abri na sua face. Estamos muito próximos, muito próximos, muito próximos, seu cativo eu lhe percebia o cheiro, e o projetava a contextos mais felizes — intimidade improvisada, desejo imiscuído no terreno da cólera (é possível se apaixonar em batalha?) —, pontinhos luminosos enchiam meu campo de visão… até que ela afrouxou os punhos um pouco. Claramente estava preocupada.

É preciso ser certo tipo de pessoa para manter a agressividade intacta. Dei-lhe uma testada e depois um chute no estômago com os dois pés. Não caiu. Encaramo-nos, metros distantes um do outro. Ela se posicionou defensiva e cerrou os dedos. Gritou:

— Você não vai me derrotar. Vou convocar o dragão, eu mesma!

Gargalhei alto. Só depois de mim, menina. Para que você quer as esferas, afinal? Ela hesitou, dando sinais de timidez. Acabou inchando-se de coragem e retrucou:

— Eu vou pedir que todos fiquem bem! E todo mundo vai ficar bem!

Ah! A boa samaritana. Bom, querida, isso só vai acontecer depois que eu trocar duas palavras com o dragão. Todo mundo pode ficar bem depois que eu ressuscitar o meu avô.

— O que? Você quer as esferas… porque…

Sua expressão desabou em tristeza. Os dedos se abriram e os braços caíram ao lado do corpo. Eu fiz menção de atacar, mas ela nem se mexeu, de cabeça baixa. “Quer as esferas, porque…”, murmurou. E então me virou as costas, caminhando lentamente para fora da plataforma, ultrapassando a linha regulamentar, desistindo. Eu venci. (Só é possível apaixonar-se em batalha.) Shiawase venceu.

***

Em off, um antigo lutador do Grande Torneio, Hércules Satã, comentava as cenas de antigas batalhas do campeonato, que preenchiam a tela. “Olha, isso tem tudo a ver com aquele poema, como é, do bojo, como é? Muitos confrontos do torneio o negócio foi quem fincava pé no chão mais forte. Não quero dizer que se chega perto da vitória assim: mas se mantém a derrota à distância, vez a vez, e isso muda tudo”. Muda? A ideia era, contudo, interessante: do fracasso ao sucesso o intervalo não era simples; podia ser curto ou prolongar-se indefinidamente como em um paradoxo de Zenão.

“Bojador, gente, não tem a ver com bojo! Bojador, como é? A dor do Bojador…” Na tela, de um lado da plataforma, um oponente se defendia dentro de um vento furioso, lancinante; o seu adversário não se aproximava, sob risco de sofrer cortes graves. Tendo de recuar, era vulnerável aos ataques e ao cansaço. “Dá uma olhada: ele cruza os antebraços e pula. Aquela ventaria bate que nem peixeira, o sangue vaza, o garoto vai adiante, dane-se. De repente está dentro. Atravessou a violência! O jogo acabou aí”. De fato. A luta não prossegue muito mais depois disso. “Quem quer ir além do Bojador, tem de ir além da dor. É isso! E está aí, na cara, que é isso mesmo, né não?”.

***

Do sem movimento do aguardo pelo início da luta o sinal os levou ao sem movimento do estudo do outro. O pôr-do-Sol tingia as pedras da plataforma de um laranja esmaecido. Hinagiku e Kachiaru se respeitavam, isso era evidente; um respeito, nós adivinhávamos, decantado de choques e consensos — das relações de força e dos devires do afeto sobrepostos ao longo de anos. Quando enfim deram os primeiros golpes, era como se reapresentassem um ao outro estratégias de outrora — o ataque e a resposta sucediam-se, levemente surpreendentes não por inéditos, mas por, contra tudo, serem ainda os mesmos. Tanto se passou e ainda a mesma ópera! — a serenidade de ambos dizia.

Uma aproximação ousada, uma esquiva no último instante, um rodopio; nos primeiros movimentos: apaixonaram-se. Hinagiku meio que contestando um desafio de uma namorada que ele tinha (“você não vai falar mais com ele!”), driblando o noivo que não lhe agradava mais… Kachiaru talvez fruindo a um só tempo as ousadias de abandonar um compromisso e de estabelecer um compromisso — o par em especulação libertária, liberando-se do mais para acoplar-se a algo que fosse mais. Sou livre porque escolhi você. E/ou: Kachiaru descobrindo uma mulher adaptada ao seu ideal de submissão e Hinagiku deliciando-se com a fantasia de ter domado um mulherengo: no outro um meio de sentir-se ou tornar-se potente. Sou forte porque tenho você. Os adversários se equiparavam.

A guarda aberta, um bote falho, a ponderação dos golpes baixos: casaram-se. Kachiaru cumprindo o manual de instruções da vida: engravidou-lhe duas vezes, comprou carro e casa, a dispôs de criada vitalícia, educou as crias com rigidez e um toque de crueldade. Fez-se objeto de fascínio para os três. Hinagiku reagiu com ciúme doentio e destrutivo (delirante?). Mobilizou narcolepsia e esgotamento nervoso. Quando Kachiaru tentou uma investida especialmente violenta, Hinagiku protegeu-se com um rebento soldado do Exército. Ele lhe sufocou os desejos, suprimiu suas opções, desprezou sua ambição e capacidade. Ela devolveu ressentimento e servilidade. Velhice, doença e cansaço levaram a disputa a diversos tipos de empate. Um romantismo curado da sua doença podemos testemunhar nos instantes delicados em que eles notam como cirurgia após cirurgia fizeram-se almas gêmeas.

A aparência de equilíbrio ou o equilíbrio concreto final no entanto eram desmentidos pela dialética deficitária que o havia precedido: se ambos haviam estreitado mutuamente seus horizontes, era ela quem havia sido mais reduzida, não obstante se mantivesse firme e operante como sempre. A cada lance, víamos como seu estilo se degradava fração a fração. Tudo estava a favor de Kachiaru: ele se encaminhava como que por destino à vitória. Foi então que a Lua surgiu e abortou o torneio.

A cauda de minha mestra volteava atrás de si. A noite caíra completamente. Quando a Lua cheia foi descoberta pelas nuvens, Hinagiku fechou os olhos e deixou fluir sua escuridão. Transfigurou-se: a epiderme foi agitada por violentas convulsões e cobriu-se de pelos negros; o corpo agigantava-se a explosões, como se socado de dentro pra fora. Nas arquibancadas, parte do público se aterrorizara com o monstruoso gorila formando-se; fugiam aos montes, tropeçando nas escadas. Hinagiku feita titã erguia os punhos e os descia como meteoros. Kachiaru se esquivava ao passo que a plataforma era completamente destroçada; por três vezes, bloqueou o golpe com as mãos nuas, até que ela conseguiu agarrá-lo e principiou a esmagá-lo entre os dedos. Sentiu os seus ossos quebrarem e o atirou contra a escola. O corpo fragilizado atravessou o teto e a estrutura toda desabou.

Mas, logo de pé, Kachiaru escalou os escombros. Tinha a capacidade de se regenerar? Acendeu um cigarro. O macaco urrou; o tambor de socos no peito tremeu todo o estádio; o terremoto rompeu-se em um novo ataque, punho-martelo tombando sobre o inimigo — e chocando-se violentamente contra uma barreira de força. A mão ricocheteou, combalida. De pronto, Kachiaru saltou; seu corpo recoberto de Qi roxo bruxuleante cortou o ar e varou de ponta a ponta o coração de Hinagiku. Os beiços moles sobre dentes não mais ameaçadores, a expressão algo sonolenta, confusa pelo súbito déficit de vida… Despencou. Hinagiku morta, meu deus, Hinagiku morta..