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episódio 18 – Esfera de Cinco Estrelas: Gercina

O monstro regrediu aos poucos à condição de senhorinha. Corremos, eu, Shukun e Hikari a ela, caída em uma poça de sangue. O buraco no peito era rubro e escuro. Estava debilmente consciente. “Meu menino”, ela me disse, levando a mão vaga à minha bochecha, um último sorriso encantado no seu rosto. Meu choque obliterava por complexo o pandemônio que se fizera no estádio.

Ouvia, como que debaixo d’água, sons de explosão e rajadas de metralhadora. Concentrado na face dela, os pensamentos passavam pela minha mente como bons dias de estranhos. O Jade invadira o espaço da competição, tinham a desculpa de que precisavam — a conclusão revoou de um lado ao outro. Persistia a evanescência nela. O desaparecimento se evidenciava. Lutavam contra ele, tinham de capturá-lo. A sua mão perdeu mesmo a força mínima necessária ao carinho; caiu sobre a barriga como uma tristeza. Shukun e Hikari ergueram-se afoitos: também hão de lutar? Eu a abracei, chorei sem lágrimas e sem ar. Algo em mim, a despeito de mim, procurava criar uma metáfora para explicar a mim o meu estado: alegrias de areia, ampulhetas partidas? Minha subjetividade lia definições da fome a um faminto. Na vanguarda de todos que eu era, esse fiapo de eu não sabia nem querer.

O corpo de Shukun foi lançado ao meu lado, avançando ainda alguns metros à frente com o impulso. Fumegava. Soldados e mais soldados caídos pavimentavam o perímetro. Hikari, ferida, se afastava para longe. Outro sentimento foi capaz de vir a mim: a fúria. Kachiaru voltava a sua atenção a mim.

— A final foi decidida. Sou eu contra você.

Ergui-me, afastei as pernas e fechei os punhos; berrei. O Qi percorreu meu corpo, violento. Disparei contra o inimigo, completamente concentrado, cada uma das centenas de socos que desferi causava uma mediana explosão de luz. Por muito tempo eu ataquei sem nem mesmo perceber o adversário; puro avanço, pura tentativa de destruição quase sem objeto. Por fim notei que ele se defendia com facilidade; entre os dedos de uma mão o cigarro, a outra entediando-se com os golpes. Busquei mais força em mim, encontrei; meus olhos queimaram e a dormência atingiu todos os meus membros à medida em que eu atingia a velocidade da luz; os nós dos meus dedos contra a sua palma estendida, as ondas de impacto abriam rasgos no concreto da plataforma. Mas era eu contra a imobilidade. Ele então prendeu meu pulso e o torceu para trás; uma joelhada no estômago me dobrou; uma segunda me estourou o nariz e me atirou para trás. Perdi a consciência.

***

“Vou ficar com as suas esferas também”, a voz de Kachiaru me arrancou do desmaio, “e será melhor para nós dois — bem, mais para você — se não ficar no meu caminho novamente”. Minhas esferas, ele tinha roubado as minhas esferas… pus-me, trêmulo, sobre os cotovelos. Com a vista embaçada, vi sua expressão de descrédito. “Ainda de pé? Mas então a batalha não está terminada. Este brinde ficará com quem, se a batalha não está terminada?”. A esfera de cinco estrelas, soturna sob a luz.

***

Frívola atmosfera de cores fraturadas. Morremos em conjunto a morte dos outros. Feições de índia velha, prosódia nordestina, a minha tia-avó Gercina faleceu poucos anos depois do meu avô. O que senti foi alívio: seu fim me feria, porém a ferida era precária porquanto tia Pina era uma figura quase mitológica, inconstante, da minha infância — sua morte era apenas o eco do perigo real: today, we escape… Defunta, reorganizaram-se ao redor de si responsabilidades. Levei a minha avó Margarida a vê-la em despedida. Através de uma Guaianazes empoeirada, no meio da tarde, entramos em uma igreja de arquitetura modernosa, deserta. Numa das salas retangulares projetadas para o lamento, fileiras várias de familiares meus que eu nunca havia visto. Um falecimento desenterra redes, ativa outra vez conexões, eletrifica os nós com sentimentos vagos de obrigação e pertencimento. O “meu sangue”, de repente. (Estranha, neste dia, a transformação dialética do luto: com a vinda dos irmãos sobreviventes, minha avó alegrou-se pelo reencontro, riram e informaram-se mutuamente da vida. Esquecidos do trabalho da tristeza, exibiam a beleza daquilo que os trouxera ali; por outro lado, eles demonstravam uma espontaneidade e egoísmo de sentimento que impediria reunirem-se antes do próximo óbito. A morte de alguém, em um sentido delicado, é uma bênção?) Participei de funerais por dever de respeito e amizade: da mãe da Camila — as filhas aplicadas na recepção dos parentes e amigos, não contendo a aflição, mas: percorrendo-a por vias diferentes; do pai do Yoshiharu — quando o caixão desceu, o peso do salão, mesmo entre nós, desconhecidos, se dissipou; algo tinha terminado, ou tínhamos encenado o símbolo de que algo terminara. (Se é assim, nosso choro devia ser “bem diferente”, como o de Cartola: vivo feliz em Mangueira porque sei que alguém há de chorar quando eu morrer. Arroz e feijão quentinhos, carne na brasa cheirosa; em vez de velório, festa, como se Akira Kurosawa sonhasse seu sonho no Brasil.) Já disse, na manhã do enterro do meu avô, me inventei regras morais. Certo amigo que o acompanhou boa parte da vida tinha o direito de saber. Também se chamava Antônio; apertou os olhos para me identificar no pé das escadas; galgou os degraus baqueado pelas décadas; ciente, pode comentar apenas: “Toninho…”. Uma família; uma dedicação; um nome; algo de estável em meio ao torvelinho, por favor. Eu precisava também dizer — a pessoas especiais. Contei ao Rafael: ele me devolveu um emoticon triste, que eu senti sincero, e gosto de pensar que lá em Minas ele se abateu um pouco por mim. Contei ao João, que comentou uma coisa bonita: queria estar perto, para poder me dar um abraço. Eu riscava linhas entre pontos dispersos como se de tal maneira restaurasse alguma coerência ao mundo.

***

A esfera de cinco estrelas, na mão de Kachiaru.

— Portanto, para que não digam que não mereci o premiozinho…

…ergueu-o no ar e me fraturou com ele a têmpora esquerda.