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episódio 20 – Alucinações do Androide Paranoico

Não era capaz de me mover; assistia às dores em meu corpo como se alheias. Algo quente empapava o meu cabelo; ergui o braço trêmulo e toquei a umidade. Opus meus dedos manchados de rubro à lua velha. Por trás deles apareceu o rosto assustado de Hikari. “Não desista, não desista”, ela dizia. Rasgou a bata na altura da barriga e passou a murmurar um palavreado indistinguível. De repente, o seu tronco se curvou para frente, violentado; ela exalou um gemido de dor. Quando se endireitou, ofegante, do ventre emergia uma esfera negra, que se manteve flutuando entre suas mãos quando se extraiu de todo. Parecia orgânica, miríades de pequenos tentáculos de tinta negra compactados, sobrepostos.  Rugiam, dissolviam-se, ressurgiam, labaredas na superfície de um Sol subalterno. Ela o pôs em mim. Lesmas e minhocas de nanquim lamberam-me a barriga. “Vá, Kasshoku”, ouvi.

***

Please, could you stop the noise?
I’m trying to get some rest

Via-me de cima, deitado sobre o lençol branco de uma cama, minha imagem alongada e distorcida como se vista através de um espelho anamórfico. Sem foco, reduzida a uma mancha marrom, uma porta se abriu em um canto do quarto; vermelho, bege e preto entraram, vieram até mim, cada vez menos pintura abstrata e cada vez mais criatura ganhando definição conforme se aproximava. Uma mulher. Trazia com ela uma colher cheia de um doce alvo. Paranoid Android, do Radiohead, tocava em algum lugar. Ela forçou o aço contra os meus lábios. Tentei resistir, olhos fechados e lacrimosos, músculos da face retesados, mas o açúcar chegou espúrio à minha língua, tentei resistir, tentei.

When I am king,
you’ll be first against the wall

Meus pés pisando grogue no carpete azul, na cerâmica da cozinha, parados à frente da geladeira. A garrafa pet nua, eu bebi a água gelada aos goles. Sede e sono. Febre e meus braços pintalgados de nódoas purpúreas. Grogue, abri uma porta que não a minha. Na cama de casal, um homem monta uma mulher de pernas abertas, ambos de cueca e calcinha. Enojado, fugi pelo corredor; à entrada do banheiro, porém, o homem, de pênis ereto, grosso e comprido, a cabeça sanguínea. Desonrado, voltei ao beliche. Os berros de uma briga me tiraram do torpor. Fingi continuar dormindo. Através do batente, vi o homem, como se a estátua o ameaçasse, esmurrar Xangô em uma prateleira.

The panic, the vomit, the panic, the vomit:
God loves his children

Sinto o cheiro da urina e da pelugem encardida dos pitbulls na varanda, suas orelhas decepadas e a pele amarfanhada restante costurada com fios pretos. No sofá um gato banhado inadvertidamente com um produto tóxico agoniza com miados espaçados e tênues. Um vira-lata de pêlos macilentos fode uma lhasa apso que nem mesmo se digna a ficar de pé. Com o pau inchado e preso na boceta dela ele permanece elétrico, boca aberta e língua para um lado e para o outro, enforcando-se com a coleira. Antes ou depois eu tento tirar um osso da sua boca; morde meu polegar. Entro em colapso; percebo o corpo gradativamente dormente, subo escadas com pernas bambas, desabo no colchão.