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episódio 21 – Promessas de Liberdade

Kasshoku era um compacto de Qi pervertido, fluxo de vida estacado, oceano vertido em petróleo. Ao transferi-lo de si, Hikari injetou em mim o ódio como se gasolina, atiçou os anticorpos da minha subjetividade — a arrogância, a autodepreciação, a raiva, a melancolia, o desprezo, o orgulho — e a vontade de destruir (a si, aos outros) que eles incitavam fortificava à sua revelia uma identidade que pouco a pouco tornou-se capaz de prescindir deles. A criatura sustentou meu corpo combalido e me deu tempo para me recuperar. Após onze dias inconsciente, acordei. Estava na casa dela.

Por muito tempo, só com dificuldade pude me levantar da cama. Engraçado que eu me recorde dessa situação com alguma nostalgia, pois era tudo como um estado de sítio: eu, muralhado numa fração de saúde, ameaçado de doença, cingido de fraquezas. Das ameias das minhas possibilidades limitadas eu avistava o tanto que as circunstâncias me recusavam. No entanto, ao lembrar, eu sinto uma ternura própria àquele momento. O pouco ainda é pouco, mas nosso pouco. Horas ouvindo o meu discman, a vista da minha janela (os ladrilhos verde-escuros do corredor à frente do sobrado, as telhas no muro do vizinho, cilindros cortados boiando sobre um excesso de cimento seco). Meu violão. Olha que coisa mais, que coisa à toa, boa, boa, boa. Meu violão. Preto. Empoeirado.

O violão me ensinou que a dor ensina. Ou me reeducou nessa doutrina. Admiro as falanges feridas pelo aço ou pelo nylon; com o polegar sinto a ponta de cada dedo, a pele que descobriu uma fértil rudeza. Repito vezes sem fim a marcha da primeira à sexta corda e de volta, casas um e dois, dedo indicador e médio, casas três e quatro, casas cinco e seis, casas sete e oito, casas nove e dez… e de novo; depois, dedos médio e anelar; depois, anelar e mínimo. Crispa-se o mindinho, paralisado por um momento, dolorido: não adianta: nós faremos isso novamente. Forço o espaço entre os dedos contra o lombo do violão, para distender a abertura e alcançar notas mais distantes. Essa pelezinha entre um e outro parece tão frágil — se rasgará se eu me exceder? Corro o risco.

Exuberante que minhas mãos sejam capazes de se tornar capazes de tocar música. Exuberante que eu seja capaz de me tornar capaz. Ademais, a possante preguiça frente a ter de aprender tablaturas alheias… o que me restava? Inventar tudo só, acarinhar-me do meu ruim.

***

Convalescente, eu era novamente mitólogo amador. Como quando cheguei à casa da minha antiga mestra, tive a oportunidade explorar o realismo fantástico em que consiste uma pessoa. Na galáxia Hikari orixás e santos católicos conviviam, sincréticos; um pote de vidro cheio de sal grosso negava acolhida ao mal; espelhos eram distribuídos segundos os preceitos do Feng Shui; uma cachorrinha preta andava pra lá e pra cá, latindo às vezes seu nome na sua língua: Wendy, que se sentava sobre as pernas e balançava o rabo curto no chão, a expressão pedinte, enquanto eu comia de manhã as fatias de pão de forma fritos com margarina que Hikari fizera. Que isso acontecesse todos os dias, tão certo como o nascer do sol, era tão necessário e tão esplêndido quanto o nascer do sol.

Nesses princípios de jornada, Hikari erguia-se não todos os Césares, como escreveu Pessoa, porém senhora satisfeita das coisas que construiu. Abria a porta da sala de estar que dava à varanda, a luz entrava como um sorriso sobre a sua sala de estar, os seus sofás, a sua televisão, plácidos e limpos. Atrás desse cenário, uma mesa azul dispunha um limite e criava o espaço de um escritório, no qual ela trabalhava atendendo ligações e mexendo no computador até a noite. Aos domingos, o mesmo contentamento em “ter uma vida sua” tinha como corolário o seguinte: o dono da própria vida rege os folguedos, determina aos santos os dias. Assim, se nos comuns da semana o que comíamos era simples (arroz, hamburguer, ovo), no sétimo ela se decidira a ser dedicada: a nossa refeição, singela apoteose, pronta só lá pelas cinco, oferecia arroz amarelado com açafrão, feijão, carne cozida.