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22 – Dos Nomes e dos Adereços

Durante os meses que passei em recuperação, tomei o costume de passear à noite. Aventurava-me a paradas longínquas, montado na nuvem de Hermes. Em uma dessas ocasiões, fui de São Vicente, em São Paulo — sobrevoando a praça Barão (onde uma roda de adolescentes bramia canções punk na madrugada), o colégio Martim Afonso e o píer do Careca (em que a polícia militar alinhara cerca de quinze jovens; um menino e uma menina do mesmo grupo, abraçados, acompanhavam a batida do outro lado da rua) — até Itabira, em Minas Gerais, na qual encontrei a taverna Menwotsukeru. Tornei-me conviva frequente do local; mais: me afeiçoei a ele.

O estabelecimento ficava nos fundos de uma locadora. À meia-noite, as prateleiras aparentemente encostadas à parede eram afastadas, deixando à vista uma porta cinza-Nintendo na qual havia uma plaquinha presa a um prego com um fio de barbante, onde o nome do local estava escrito em tinta preta esmaecida, de tal forma que não se viam mais o N e o W. Por ali, seguíamos por um corredor longo, de que a luz ia sendo gradativamente extirpada. Quando alcançávamos uma escada no final do percurso, não se via nada; tateávamos os degraus com os pés e descíamos. Primeiro o pavor de não ter referências; depois o prazer de perceber-se hábil a obter referências. Vinte e três abaixo e a luminosidade voltava parcialmente. Chegávamos à sala de máscaras.

— Qual o seu nome?

Perguntavam-lhe à entrada. Respondia: Kurokun. Então me apresentavam, sempre como se nunca tivesse eu ido ali, às estantes, aos baús, às caixas de papelão entupidas de disfarces e fantasias. Em Menwotsukeru não se entrava como si mesmo. Alguns falaram de “revolução permanente”; o que se dava ali era um carnaval permanente. Todas as vezes eu vestia a mesma fantasia: botas marrons de ponta bojuda; calças listradas na vertical, verde e branco, presas com um grande cinto com uma grande fivela; um casaco azul-claro com mangas compridas dobradas para trás, branca com bordas vermelhas; luvas de couro rubro curtido; e um chapéu cônico cor-de-areia, que se dobrava flácido à altura da minha nuca. Sua aba assombreava meu rosto. Era doce, pois meu rosto me assombrava.

dreamed I was flying high above the trees over the hills.
looked down into the house of Mary

A música inundava o bar quando enfim entrávamos. Todos os meus amigos estavam lá. Você quem me levou na garupa da bicicleta tantas vezes, quem jovial criava simplesmente melodias, quem se cansou de mim e depois também de si mesmo, trocando-se por pó e pedra; você quem dissertava comigo sobre todas as coisas na varanda de um apartamento, quem quase só por descuido crê nas próprias capacidades, quem me entristece porque talvez eu tenha de cantar “Canção para Amigos” para o que restou da gente; você quem me levou a uma cidade caiçara longínqua quando o que eu queria mais era fugir, você quem se confessou apaixonado por um menino enquanto nós ouvíamos “Maurício” à mesa de plástico de um boteco, você quem queria mais, sim, mas se acostumou com a leveza. Todos os meus amigos estavam lá e nenhum deles sabia aonde a noite se encaminhava.

take a bottle
drink it down
pass it around

Cumprimentava cada um no extenso salão enquanto a água salina enluarada pelas luzes dos postes batia nas pedras. Coletava trocados para comprar vodka, conhaque e cachaça bêbado de mim. Sou uma pessoa. Não é surpreendente? Sou uma pessoa! Mas a minha única garantia disso são vocês.

***

Para voltar de Menwotsukeru, pegava uma lotação clandestina na avenida Presidente Wilson, em São Vicente. Pela primeira vez por engano, não devolvi a fantasia; como nunca me repreendessem, deixei que se tornasse um costume. Sentado na van ajustava o chapéu cônico na testa como quem se persigna e acompanhava com alegria, através do vidro dianteiro, o céu alternar-se gradações de azul até alcançar o que lhe serviria nesse princípio de dia. Sorria porque cumpria o verso: “Devia ter visto o Sol nascer” (pondo-me atento aos tons róseos do dia recém-nascido eu parecia atender ao chamado de cautela que me fizera a canção). Chego à casa de Hikari soluçando, a cabeça pesada de álcool. Cumpria, assim, outro verso: “O banheiro é a igreja de todos os bêbados”. Mais: para imitar qualquer filme, me sentava no chão e, com a cara sobre o vaso, vomitava. Enfim, ia ao meu quarto.