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episódio 23 – Ascensão do Voo à Coisa

“Lembra? Ding, ding — o caldeirão. Eu tinha certeza que não realizar um ritual daria problema. Uma bruxa tem de sentir o destino e seguir.” Comigo melhor, ela me pediu para acompanhá-la em um procedimento mágico que, cria, encerraria “assuntos mal resolvidos”, processos desencaminhados, e lhe traria a mulher que procurava. “Começou quando te dei um nome. Para dar um passo adiante, temos que partir disso. Você, aqui. E a dádiva ao além.”

Hikari armou na terra mole uma oferenda ao demiurgo protetor: no alguidar, alface, feijão fradinho, cenouras cozidas, azeite de dendê, uma maçã vermelha e uma vela branca. Sentimos nas nucas um bafo quente e úmido, como se de búfalo. Encara o olho do búfalo, Hikari, o que você vê? Um pássaro negro pousa no mundo emanando tragédia. Encara o olho do pássaro, Hikari, o que você vê? O som subcutâneo da respiração do mundo intensifica-se. Ameaçador. Inconsistente. Hikari em meio a isso tudo como uma testemunha de assassinato eufórica por ter conquistado uma história para contar.

“O sol se depõe a oeste, meu espírito clama por partir”, rezava, “o sol se depõe a oeste, meu espírito clama por partir”. Mas a noite vinha, não lhe trazendo nada de novo, apenas fazendo flanar a neblina na floresta próxima. Ouviam-se vozes no escuro? Encara o escuro, Hikari. O que você vê?

***

No vão da lâmpada havia um ninho de passarinho. Avisado por uma vizinha de Hikari, incomodada com a sujeira que a mãe deixava ao sair e voltar, um faxineiro cutucou-o com a vassoura até derrubá-lo. Hikari estava à porta e ouviu isto que no futuro saberíamos ser um sinal (teria o demiurgo ouvido a demanda?). Foi ao corredor e em frente ao elevador viu a cena do crime: dois ovinhos e um recém-nascido no ninho, o homem informando que iria jogá-lo no lixo. Um pássaro que é vivo e que está à morte, um pássaro que é vivo e que está à morte, Hikari pensou; sentiu e seguiu o ímpeto de impedi-lo. Tomou a casinha e lhe arrumou um lugar entre as suas plantas. Deu de comer ao filhote, pondo, com uma colher pequenina, água misturada com fubá, pelo biquinho.

No mesmo dia, a mãe retornou. “Eu sinto a dor da perda dela, é triste”, me dizia Hikari enquanto o animal voava de um lado ao outro, rodeando o local onde deviam estar seus filhotes. Hikari agitava-se — “o desespero é visível!” —, e avançava na direção da passarinha: “O ninho está no meu jardim! O ninho está no meu jardim!”. Mas não pode se comunicar. E aí veio o pequeno milagre: os pios do filho pareceram chamar a atenção da progenitora. Quebrou seu voo em círculos e foi direto aonde o ninho estava. Hikari gritou de alegria. Por um tempo, a partir de então, a ave alimentou sua prole, até que o filhote se tornou forte o bastante para voar. Partiram sem dizer adeus.

Hikari se entristeceu só um pouco, pois o trabalho da dádiva já havia lhe dado toda uma abundância. De todo modo, resolvi presenteá-la: dei­-lhe minha Néfela. Sem você eu não teria chegado até aqui, eu disse, e além do mais agora você já é familiar de tudo aquilo que voa. Ela sorriu.

***

Contudo, em sonho ou em realidade, o pássaro pródigo voltou a nós.

Pousou em uma árvore ao lado do riacho, e cantou. Chamava-nos? Andamos por entre as árvores, atravessamos Miami, Guarujá, Salvador, São Paulo. Chegamos a um parque de diversões encanecido e só. Perseguimos o bater das asas a bordo dos botes que navegavam pelos caminhos pré-definidos de água rasa; ao fim de uma descida, caíamos na água, apenas para voltar a subir outra vez e molhar-nos de novo. Quando o barco viking chegava às suas elevações máximas, eu e Hikari esticávamos os braços para roçar no voo da nossa guia. Na casa dos espelhos, por fim, proliferou-se ela em infinitos passarinhos, mesclados às nossas imagens alongadas, bojudas, contorcidas. Sob o olhar de inúmeros nós mais ou menos distorcidos, mais ou menos concretos, tendo como a estabilidade a permitir um caminho apenas os pios que, longínquos, formavam uma melodia, nós seguíamos, batendo a cabeça contra os vidros uma vez e outra vez. Acabamos chegando a um planetário à beira-mar.

Vimos tratar-se do Emissário Submarino, em Santos. Acima, em uma cúpula cujos suportes sumiam na escuridão da noite, acendiam-se pedagógicas estrelas, acompanhadas por uma voz radiofônica: “Temos neste momento o céu do planeta marrom e amarelo, Arlia; as anãs-vermelhas compõem o panorama”. À passarinha ameaçava inutilmente a maré: a espuma morria antes de tocar as patinhas que afundavam em pulinhos na areia encharcada. “Namek, rajado de verde e branco, sofre o calor e a luz de três sóis; sua noite nunca acaba.” Aproximamo-nos. Carregava algo no bico.

Uma barata. Hikari recuou um passo. O inseto sempre a tinha horrorizado. Soube, entretanto, que desta vez não poderia fugir. A passarinha depositou o bicho moribundo à sua frente. “Castor A e Castor B, Pólux, diversos astros nomeados Gem, formam uma combinação famosa.” Hikari ouvira essa história antes; a história vinha até ela agora. Negara e desejara o tipo de choque transformador que ela esperava da experiência de saborear o nojo. Ajoelhou-se, pegou a barata e trouxe à boca.

***

O quanto os dentes precisam forçar a casca para que estale na boca? As asas, pele de cebola roxa, folhas de celofane, se dissolvem na língua? A gosma da barriga explodida, flan de coco ou manjar branco? Mastigava, “eu precisava que ela me dissesse algo”, chorando, “eu precisava estar à altura dela eu mesma”. O falso céu havia sido desligado quando ela terminou de comer. Iluminada apenas pelos letreiros que anunciavam, vermelhos, as saídas, Hikari desenhou com um dedo trêmulo figuras no solo. Primeiro, seu pai e sua mãe. Remexeu a areia, delineou seus filhos:

— Encontrei!

Mas a mão voltou a arrastar-se sobre a obra. Compôs então a imagem de uma médica, “encontrei!”, apagou-a; a imagem de uma escritora, “encontrei!”, mas apagou-a; a imagem de uma empresária, “encontrei!”, mas apagou-a. Arregimentadora de viagens, encontrada e perdida, fazedora de doces encontrada. No fim das contas, os grãos de areia tinham todos eles os traços do seu rosto.

— Encontrei – concluiu.