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24 – Cicatrizes, Caça ao Tesouro

Naquela noite, decidi que era hora de retornar à minha jornada. Despedi-me de Hikari e parti. Fui, também por despedida, uma última vez à Menwotsukeru, desta vez a pé. Lá, reencontrei Kyua.

De acordo com as regras da casa, também estava disfarçado. Vestia uma camisa branca de mangas curtas, com os dois botões de cima abertos, por cima de uma camisa azul escura, da mesma cor da calça. O cinto marrom pendia sobre a perna esquerda. Os tênis eram também brancos. Usava uma peruca castanha com uma franja espetada. Essa imagem se gravaria em mim, e sempre ao rever o guerreiro, as cicatrizes, a lâmina, eu procuraria como que em meio a escombros por ela. Onde está o menino? — eu questionaria — onde está o que eu conheci e admirei nesta manifestação curtida e conspurcada da mesma coisa? Eu guardaria gestos, uma timidez, uma agudeza, como conchas na praia — extrairia do presente um passado volátil e me convenceria de ter achado uma essência.

Olhou-me de relance, mas não me deu muita atenção. Eu esperava mais. Mas por quê? Tratava-se de uma ilusão de ótica a nossa proximidade, ou, ao menos, a nossa relação se coalhava de pontos cegos que se tornavam patentes agora quando eu o via em seu lugar “natural”. Enraizado. Distintos os cumprimentos, os tons de voz, os recursos de linguagem, o posicionar-se do corpo. Não era para mim aquela pessoa nova que se descortinava na velha. Meu relacionamento com ele se revelava a distância construída interação após interação; revelava-se distância o que antes surgia imediatez. E é como se esse caminho não fosse percorrível. O outro é o eixo central de um carrossel do qual nós somos os brinquedos que giram em torno, fixos nos nossos locais relativos.

Quando não os sujeitos desta analogia, estamos perpétuos em órbita. O outro é sempre um sol.

***

Kyua estava à uma larga mesa de madeira, com um pequeno grupo em torno. Mestrava uma partida de Mago – A Ascensão. Acompanhei a narrativa por algumas rodadas, então me decidi a ir embora. Quando eu estava próximo à saída do salão, Kyua me alcançou: “Sei onde está uma das esferas. Fácil de pegar. Afim?”. Qual o preço da dica, perguntei. Não tenho dinheiro. “Isso não é necessário. Fica me devendo o favor.” E que tipo de favor seria esse? “Você pega a sua esfera, reencontramos um velho conhecido e aí vocês me ajudam com a minha viagem”. Viagem? Eu ri. Aonde você vai?

— Eu? – respondeu, já voltando à mesa, o rosto sobre o ombro – Eu vou para o futuro.

Deixei Menwotsukeru, pois, sabendo que era para sempre; percorri o caminho contrário à entrada, saindo pela locadora. E fiz mais do que o meu costume dessa vez: não sai com minha fantasia para, eventualmente, logo, abandoná-la e ter de tornar a vesti-la — daí doravante, ela era o que eu era. Doravante, portanto, progredi paramentado: botas, calças, casaco, luvas, chapéu. Vermelho, verde, marrom, branco, sombrio, foi assim que alguns dias mais tarde compareci ao ponto de encontro.

***

with your feet in the air
and your head on the ground
try this trick, and spin it, yeah

Fone nas orelhas, ligado o discman. Só recentemente aprendi a discernir as várias linhas narrativas das músicas. Suprimir por ora os demais instrumentos, alterar o nível de atenção e se dedicar a uma sonoridade. Agora: violão. Agora: segundo vocal. Agora: guitarra. Agora: contrabaixo. Espalham-se no mesmo espaço. desenvolvem lógicas próprias, mais ou menos coincidentes. É engraçado quando passamos a ver algo que não víamos, mas que sempre esteve lá. O mecanismo.

your head will colapse
but there’s nothing in it
and you’ll ask yourself:
“where’s my mind?” 

Também tinha comigo meu violão. Por vezes, procurava na internet alguma tablatura e executava a melodia eu mesmo. A diferença entre o esquema e a feitura era então clara. Há uma personalidade na sequência de notas que não é atingida simplesmente por tocá-las de maneira correta. As lógicas múltiplas, os mecanismos distintos, eram em cada música e em cada postura de música modificadas como que por refração (a reta sendo outra reta noutro ambiente).

A versatilidade do mesmo, assim, me entretia enquanto eu esperava por Kyua. Eu havia me movido desde a rodoviária do Tietê, em São Paulo, até Itabira, em Minas Gerais. As horas se passavam, mas ele não chegava. Andando de um lado a outro e chutando pedrinhas, acabei por achar uma carta, à frente da estátua de Drummond, amparada pelo livro que ele lê eternamente:

“Seguinte, é melhor andarmos separados por um tempo para não chamar atenção. O Jade sofreu um abalo forte, mas não foi desmantelado e pode muito bem sabotar a expedição. Fora a minha falta, o plano continua como combinado. Você vai receber uma esfera. Depois vai me ajudar com os meus propósitos. No meio disso vamos encontrar nosso colega.”

Senti-me contrariado. Continuei lendo:

“Outra coisa, pelo que vi do jeito que você luta, seriosamente, você precisa de umas dicas. Vou te mandar umas aulas por carta durante a viagem. Para me responder, basta escrever e inserir o sigilo GRANDECTS (elaborei com “grandes cartas”; o desenho está aqui embaixo), que o universo conspira e chega aqui pra mim. Vai ser uma coisa meio discípulo/mestre.”

Quanta presunção. A carta pelo menos tinha as indicações de onde eu conseguiria meu pagamento, a esfera, e os procedimentos a seguir. Peguei uma folha, anotei esta mensagem, com o devido sigilo:

“Não sou seu discípulo. Estarei lá.”