Início » 25 – Esfera de Três Estrelas: Victor

25 – Esfera de Três Estrelas: Victor

Dialogar com alguém protegido pelas distâncias se mostrou de imensa riqueza. As grandes cartas se tornavam cada vez maiores, abrangendo discussões teóricas e confissões dos cotidianos. Um ouvinte justifica, corrige, flexibiliza o vivido. Neste caso, estar longínquo acrescentava um grau de segurança — não se tratava tanto de conversar com uma pessoa concreta, a quem você sempre pode decair à condição de recurso; não, nessas trocas tudo se passava como se conversássemos com uma outra personalidade nossa, tornada acessível pelos sistemas de comunicação. As grandes cartas eram um meio de nos falarmos a nós mesmos por meio um do outro.

“Você está andando pra cima e pra baixo vestido de mago de videogame. Você diz que não sabe o porquê. Eu diria sem pensar que está matando o seu ego. Pondo as rédeas da vida no automático por um tempo. Mas é isso mesmo: ‘você não é o seu nome’. Não importa se a fantasia dá na cara que é fantasia ou se é daquelas de pessoa normal.”

Seu discurso era cheio de palavras novas — eu me esforçava para acompanhá-lo. ID, Superego, Ego: eu não era, portanto, unitário, eu consistia no embate protopolítico entre três forças — a natureza, os instintos; a autoridade internalizada da sociedade; e a individualidade residual. O que me prende, o que me empurra? Vi-me à distância; eu objeto sob escrutínio. Inconsciente coletivo: os psiquismos reunidos redundam num oceano de idealidades: captamos e enviamos pensamentos e sentimentos por meio de uma rede que nos atrela a todos. Eu não era impermeável — era legião. Magia do Caos: através de subterfúgios esquematizados, podemos reprogramar nosso subconsciente para que nos ajude a conquistar o que quer que seja. Eu o resultado dos algoritmos formadores da subjetividade, fantoche, não obstante fantoche baconiano, vencedor porque obediente. Assim íamos nos diluindo, e saber quem éramos fundia-se com selecionar um personagem.

***

Mensagem a mensagem, Kyua me levou a encontrar, em São Vicente, a esfera de três estrelas.

***

Uma criança fere o dedo em uma afiada folha de sulfite; mesmerizante, o corte incha, vermelho. A criança se apavora, pois não sabia que entranhava sangue em si. Meu amigo Victor morreu em um acidente de moto; tinha menos de trinta anos. Chegara em casa pela manhã, vinha do Rock in Rio, com a catarse e a camaradagem na pele, como costuma ser. Brigou com a família e voltou a sair — virado e bêbado. Tinha decidido ir à casa do seu primo, Danilo, a quem ligou, e que lhe disse: “Não pega a moto”. O carro lhe pegou pela lateral. (Uma característica nuclear dos acontecimentos e das histórias que interpretamos como trágicas é a sua falta de necessidade. Othelo e Macbeth, vistos deste nosso ponto de vista que sobrevoa as artimanhas e a conclusão, são criaturas que poderiam, a cada passo, contrapondo-se ao que nos aparece como erros evidentes, modificar seus destinos. O incômodo indispensável da tragédia é que tudo poderia ter sido diferente.) Não éramos próximos exatamente, mas ele estava sempre presente nos nossos ensaios, parecia gostar verdadeiramente da música que fazíamos. Ao fim de um show, veio até mim e disse: “Foda!”, e isto apenas, pelo fato de que era desinteressado e expresso com alegria, teve valor. Foi nesta lembrança que sofri o luto, foi ela o que tive de deixar queimar lentamente e então assistir ao dissipar das cinzas. Victor tinha a minha idade à época. O raciocínio surgido nessas situações funda-se numa petição de princípio: coloca em perspectiva o potencial de vida desperdiçado. O que seriam esses dez, trinta, cinquenta anos que o aguardavam, essa cidade alagada, essa revolução traída, essa intenção defunta de um soco? (Tyler Durden, em Clube da Luta, executa um tipo de performance que chama de “sacrifício humano”. O personagem arranca do seu posto um atendente de uma loja de conveniência, lhe põe de joelhos, mira um gatilho à sua cabeça, pergunta o que o seu refém quer da vida, o que, de fato, queria estar fazendo, o que gostaria de realizar. Quando extrai as respostas, impõe ao subjugado o seu próprio jugo, demanda dele que seja sujeito: ou cumpre o que disse desejar em tantos meses ou Tyler retorna e o mata. De repente, então, tudo muda: é como se se pudesse morrer a qualquer momento, e é preciso ser de acordo com a urgência.) O bebê cadáver é imediatamente subsumido pela condição de ideal, torna-se “anjo”; o jovem deixa o gosto persistente de rumo interrompido. He had a stroke at the age of twenty four; it could have been a wonderful career. O corolário disso é: e quanto a nós? O que ele poderia ter feito aprofunda-se em: o que eu posso fazer? O que fiz do tempo, o que farei do tempo? Quanto tempo? O menino morto tornou-se uma régua. Mede-me e já estou justo: minha vida cabe inteira, sem mais, na fôrma da morte.  Um velho cuja barba branca desce até o umbigo rasga o abdômen com uma peixeira; por uma corda, desce ao térreo da ferida, respira fundo e põe-se a percorrer a estrada; seus pés encarquilhados afundam na terra preta que, saturada do líquido vital, forma poças e bolhas rubras por toda a sua extensão. Uma amiga minha, Gabriela, suicidou-se. Para mim, ela se tornara o símbolo da minha pós-graduação; no dia em que apresentaram o curso aos calouros, ela se apresentou: era representante discente. Eu, mestrando, ela, doutoranda, cursamos a mesma disciplina em um dos semestres. Era parte da organização dos eventos internos, tinha criado o grupo de Facebook e o de Whatsapp, propusera um programa de rádio sobre informação. Agregadora, produtiva, esforçada. Como? Por que? Um suicida demonstra que acreditamos sobretudo na inércia. Descubramos “evidências” de que isso poderia ser previsto: mãe de uma filha pequena — parece estava tendo problemas com a guarda da menina; um ou dois dias antes postara um pedido algo desesperado por indicações de emprego, e compartilhara toda a letra de “Hand in my Pocket”, da Alanis Morissette — I’m broke, but I’m happy. O momento de ser forte ainda mais uma vez, a borda do despenhadeiro. (Kurt Cobain, em sua última entrevista, para a Rolling Stone, não agia como alguém que daria um tiro na própria boca em breve. Empolgava-se com possibilidades criativas, achava graça em quem o via como um doido autodestrutivo. Disse ter sugerido que um álbum seu se chamasse I Hate Myself and I Want to Die como piada.) A morte de Gabriela gerou um efeito curioso: eu e outros conhecidos dela, assim como pessoas a quem contei essa história, todos de súbito escrutaram seus amigos em busca de alguma dor disfarçada. Sejamos mais próximos, disseram. Tudo poderia ter sido diferente, querem crer. A menina morta tornou-se uma régua — para os outros. A morte é o único ponto de vista.