Início » episódio 26 – Leão e Mero Cristão

episódio 26 – Leão e Mero Cristão

Encostado em uma árvore sob a noite manauara, eu dedilhava no violão

Hello,
I’m the ghost of troubled Joe
Hung by his pretty white neck

enquanto observava o Amazonas serpentear entre as árvores curvadas, pesadas de penduricalhos, sobre as águas. Entre os versos do estribilho despontou no horizonte obliterado de escuridão a proa do navio que eu aguardava. O dourado da madeira anunciava a sua chegada como um sol adiantado. A carranca era um dragão de boca aberta; as asas do animal se estendiam até as laterais verdes da embarcação. Quanto aportou próxima a mim, vi a luz da lua refletida sobre o púrpura das suas velas quadradas. O casco balançava-se levemente como que sobre petróleo.

but don’t, don’t mention love:
I’d hate the pain of the strain again

Quem eu aguardava, nós nos encontrávamos novamente, afinal: era Jintoku. Sua pele rosa tinha um tom baço na sombra, o que combinava com a sua expressão entristecida e cismenta. Voou do barco até mim, o colete sacudindo no ar, as calças infladas pelo vento. Tinha a seriedade de um desenho animado; seu conforto era a naturalidade de um cartoon.

***

Jintoku tinha se afiliado à empreitada de Kyua, como eu, por um motivo particular: estava em uma missão possivelmente suicida para extrair Jesus Cristo das mãos do exército Jade. Sim: o Messias da religião cristã havia sido capturado. No momento, sob correntes, seguia ao Sanatório Jade.

Dirigíamos agora pela Transamazônica. Meu companheiro pilotava, as carnes róseas vazando para os lados do banco, marcadas fundo pelo cinto de segurança apertado. A terra vermelha permanecia monótona por quilômetros. Devíamos ir ao encontro de Kyua; segundo ele, teríamos de nos perder a caminho de Diamantina e encontrá-lo em Ipatinga, ambas as cidades em Minas Gerais. Falávamos enquanto o tédio repetia árvores. “Um deus dinossauro? Méh. Você está correndo tanto por isso?”, me perguntou. Não se trata de dinossauro, é um dragão. Solucionador de desejos. Ele riu. “Sim! Um dragão… de novo: você está pra lá e pra cá atrás… de um réptil? Uma lagartixa que voa?”.

Que voa e repara a morte, que tal? Jintoku assumiu um tom professoral. “Kurokun, o meu Senhor, depois de humilhado, crucificado, assassinado, reapareceu aos discípulos”. Uma lagartixa regenera o rabo, retruquei, quem sabe com a própria vida possam alguns fazer o mesmo? “Ok, ok”, rindo-se, “Mas tem mais isso: meu Senhor concedeu outra vez a Lázaro que vivesse. Bastou lhe dizer: levanta e anda. Você não precisa dessas suas bolinhas laranjas. Você precisa de fé”.

Jintoku, me parece, nunca perderia a expectativa de que eu me voltasse à crença; ou, o que é mais exato, era como se avistasse detrás das minhas ações a matéria prima dessa fé, como se eu, a cada episódio, expressasse um tal potencial à minha revelia, e que seria suficiente eu me encaminhar a ele e percebê-lo meu sustentáculo e trampolim. Em outra ocasião, ele me contaria sobre como todas as religiões podiam ser entendidas como os feixes de luz que penetram uma cela escura, mais suaves umas, mais encorpadas de poeira outras, não obstantes todas originárias da mesma luz. É possível que eu o tenha entendido de forma ecumênica demais. De todo modo, a ideia, assim interpretada, eu admirei as suas possibilidades de paz. Contudo, só a minha luz me atraía verdadeiramente.

“Não há Eldorado às margens dessa estrada”, Jintoku introduzia um novo tópico da aula, “Porém no depois da morte haverá algo maior, onde descansaremos”. Descansar em uma visagem estupenda — sim, isso me seduz. Nossos pés além-viventes pisariam ruas de uma metrópole de ouro, amarelo mesmerizante rodeado por muros altíssimos de jaspe vermelho opaco enfeitados pelo sárdio castanho-avermelhado, pela calcedônia marrom, pela ametista “queimada” laranja-escuro e amarela, pelo topázio amarelo-avermelhado ou rosa-avermelhado. Também a ametista roxa e o topázio azul-claro, a safira azul-escuro, o berilo azul-esverdeado, o crisoprásio verde e a esmeralda verde só um pouco menos clara. Também a raríssima esmeralda transparente, próxima ao topázio transparente, ao jacinto vermelho-vinho, à sardônica vermelho-marrom. O amarelo-ouro do crisólito. Nestes muros, ainda, doze portas de pérola, seu branco duro e brilhoso consoante com as vestes purificadas de todos nós, reunidos na exuberância. Entretanto, perguntei:

— Mas, então, para que muros?