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episódio 27 – Eficácias da Sinceridade

Pela janela do veículo sucediam-se espaçadas as árvores, picolés e cilindros verdes cujos galhos lhes riscavam de listras diagonais ou onduladas. Nas nuvens dinossaurinhos laranjas agitavam bandeiras. A paisagem me interessava pouco, contudo: trazidas das lonjuras, as grandes cartas enchiam meu colo de diálogos. Nelas, Kyua me apresentava o “Jogo de Lecter”, um desafio inspirado em O Silêncio dos Inocentes. Consistia em um escambo de sinceridades: cada qual devia confessar uma vergonha, um fracasso, um desejo, uma bizarria. Algo de escondido, algo de arriscado. Performance negativa do “Poema em Linha Reta”. Exercício de sinceridade absoluta, liberar-se de pesos silentes.

Não era tanto aquilo a que eu me dispunha a entregar, não as brechas nas minhas defesas que dali adiante eu abriria — era o que sutilmente me exauria não expressar, esforçar-me por não saber ou deixar saber. O segredo, toda forma de segredo, é uma atividade. Colocar de lado esse esforço por um momento — eis a perspectiva do Jogo de Lecter, potencializado pela segurança da comunicação à distância (éramos como abstrações, dupla personalidade um do outro). Às margens da estrada os canos de esgoto protuberavam verdes e verticais às margens da estrada. Observei-os passar como borrões, absorto; então tomei da caneta e escrevi em uma folha de resposta:

Não rezei no velório do meu avô, não me reduzi a um crente, e me orgulho disso.

Isso porém não era vergonha, fracasso, desejo, bizarria; não era exatamente segredo: o incômodo aí era distinto, concentrava-se no fato de que esse ato subjetivo plenamente consistente só ganharia uma realização completa se fosse posto assim, em manifesto. Era preciso que alguém soubesse, mas isso ao mesmo tempo mediocrizava a convicção. O lúdico lecteriano nesse caso satisfazia a precisão do “tenho de dizer” e o embaraço do “tinha de ter dito”, e a ambos recebia indiferentemente, doce. São várias as efetividades e desníveis das lutas que lutamos conosco dentro de nós. Um solavanco sob as rodas: passávamos agora a um piso de madeira que flutuava na escuridão. Lá e cá flutuavam fantasmas gordinhos. De longe via-se lava. Que mais eu contaria nas grandes cartas?

***

Preferia e continuei preferindo mesmo após essas experiências formas mais assépticas de confissão. A literatura, por exemplo, ou a pretensão de tê-la exercido. Era algo que eu havia feito mesmo antes desta viagem em busca das esferas, recobrindo a matéria factual com o claro-escuro das metáforas, das alusões intelectuais, das referências endereçadas a alguns leitores em particular, intencionando a leitura como um jogo de montar no qual deliberadamente faltavam peças e ou se compunham as ausentes com materiais próprios ou se aprendia a amar as lacunas. Sempre quis me esconder à vista de todos. Evidente e latente. Por exemplo agora mesmo.

Kyua, frequente único leitor das minhas escrituras, ele próprio um contador de estórias bissexto — e carregado da leitura dos Seis Passeios pelos Bosques da Ficção, de Umberto Eco — comentou isso:

“Juntando semiótica com narratodologia, eu diria que falta um caminho dentro do próprio texto, que vai ter as informações necessárias para seu entendimento. A chave tem que estar embaixo do tapete, entende? Isso se refere à criação do leitor-modelo no próprio texto. O entendimento se dá quando o leitor sabe aquilo que você sabe para desvendar o texto. Tirar da mente e colocar sem nenhum contexto não gera o objeto imediato que você pretende.”

Respondi algo como esperar do leitor que fosse um detetive. Kyua retrucou:

“Sobre os ‘enigmas’ no texto, acho que ainda sim você esconde demais em alguns. Eu leio às vezes e não vejo nada, daí eu leio de novo. E creio que eu devo estar bem preparado para ser seu leitor modelo. No entanto, não sou. Quando digo pra chave ficar em baixo do tapete, é porque isso é comum. Jogar pistas fáceis pelo menos para o leitor procurar algumas mais difíceis. Há uma coisa chamada articulação. É a maneira com que se faz as informações de um texto completarem outras antes ditas. Aquela habilidade de buscar no fim do texto um conclusão para a pergunta que se fez no primeiro parágrafo. Mas posso estar errado e as pessoas realmente entendem o que precisam entender.”

Mas como receber conselhos sobre escrever? Escreve-se sob a água, onde os sons do mundo, vozes e demais, filtram-se gordurosas e indistintas; é lá que o ar apodrecendo fomenta a criatividade; lá, no pequeno pseudosuicídio, os brotos do gênio. Subo o rosto à superfície e ouço a respeito de como agir, de como melhorar — mas cá debaixo só posso recorrer a mim mesmo concentrado.

***

Depois dos corredores rochosos bordejados de magma — onde escapamos dos cubos de pedra que possuídos tombavam visando às nossas cabeças —, atravessamos de ilhota a ilhota um arquipélago ensolarado, alcançando os terrenos pedregosos em que flores-piranha mordiscavam o ar e então as pistas de neve em torno de um lago recortado anguloso no gelo. Enfim, sobre lajotas multicoloridas, boiando no espaço sideral, nos aproximamos do termo desta road trip; encontraríamos Kyua.