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episódio 28 – Da Substância da Salvação

Mais uma difração: o Kyua das cartas oposto ao Kyua enfim reencontrado. As pessoas esfarelam de um jeito… observe qualquer um: pululam ali representações e definições gradualmente acumuladas que devem explicá-lo. Porém soterrado por elas está um oco translúcido o qual não podem recobrir completamente, ao qual não aderem. Como que a leitura não me entregou tudo? Eu tive você aqui nas minhas mãos, o seu depoimento. Boia o meu discurso despedaçado, um tal constrangimento de não poder firmar minhas certezas. Móvel, móvel demais, uma pessoa.

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Em um bar de Ipatinga, Kyua dispôs, à nossa frente, entre cervejas, cartas de Magic! The Gathering, um jogo de baralho com temática fantástica. Com ajuda delas, explicava, seria capaz de discernir os caminhos por dentro do Sanatório Jade. O místico, ao que parece, é tremendamente acessível.

Havia desenvolvido um método que utilizava o Magic! sob as regras do Tarô, presumivelmente com efeitos análogos. A partir de um deck pré-montado (selecionando cartas cujo descritivo incluísse um elemento “literário”, isto é, narrativo ou aforístico — como é comum nesse jogo), selecionavam-se uma a uma até que se dispusessem dez cartas na mesa. Figura e texto deviam ser interpretados de acordo com a ordem de retirada: a primeira simulava o momento presente; a segunda, o obstáculo; a terceira, os fatores externos; a quarta, a motivação inconsciente; a quinta, as influências passadas; a sexta, o futuro imediato; a sétima, a atitude do consulente; a oitava, a visão das pessoas próximas; a nona, as esperanças e os temores; a décima, o desfecho da situação.

Casa 1 (Momento Presente) | “Telepatia”: Seus oponentes jogam com os cards de suas respectivas mãos revelados. | “A questão não é se eu posso ler mentes, e sim se eu ainda encontrarei uma mente que valha a pena ler.” — Embaixador Laquatus

(Você também pode jogar o jogo. Suponha que a mão tirada aqui foi sorteada para ti: o que o jogo te fala? Eis teu momento presente: você vê claramente, é até ridículo, todas as estratégias que foram preparadas contra você. Não é assim? Vasculhe-se.) “Tá bem na cara, né? O Jade não esconde suas cagadas”, Kyua pensava alto, “o que você vê é o que você obtém”. (Ou você pode jogar outro jogo. Que tal se eu te sacar augúrios sob medida? Aqui, do meu monte, extraio outro momento presente, especialmente para você: “Fecundidade”. Por favor, procure sozinho, eu não farei tudo.)

Casa 2 (Obstáculo) | “Avatar de Serra”: O poder e resistência de Avatar da Serra são ambos iguais ao seu total de pontos de vida. Quando Avatar de Serra for colocado num cemitério vindo de qualquer lugar, embaralhe-o no grimório de seu dono. | “Serra não está morta. Ela vive através de mim.”

Ela vive através de mim… eles dizem que ‘preservam’. Tem coisa aí…”. Antes dessa investigação do inimigo, Kyua montou para a gente leituras com focos nas nossas vidas pessoais. No começo, foi um bocado constrangedor vê-lo dar tanto valor àquilo. Afinal, faça-me o favor, cartas de Magic? Mas a questão é que, a seu modo, todo espelho reflete: o que faz atuar o sortilégio é a operação de fazer com que nos vejamos de forma inesperada. De repente uma maneira de mapear-se: muito bem, eu sei delimitar, com uso da palavra “obstáculo”, certos setores das coisas que vivo.

Casa 3 (Fatores Externos) | “Desmatamento”: Reforçar — Sacrifique um terreno. | Previne todo dano de combate que a criatura alvo causaria neste turno. Se você pagou o custo de reforço, previne todo o dano de combate que outra criatura alvo causaria neste turno.

Derramo-me nesse novo vasilhame: “Fatores externos”. De pronto eu me capacito a me ver segundo as ideias de influência, condicionamento, opressão. É diferente de se supor livre: o modelo pelo qual me apreendo muda tudo. (Decidiu qual jogo você prefere jogar? Um: que travas você mantém vivas às expensas de si mesmo, o que você tem sacrificado para imunizar-se. Dois: uma tarefa para você: obstáculo: “Desviar Olhar”; fatores externos: “Curandeiro Kalastria”.)

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Quanto à carta anterior, é claro que Kyua gerou toda uma teoria do que o Jade estaria matando em seu nome, que territórios destruídos lhes estariam dando invulnerabilidade. Nós acompanhávamos sem exaltação. Não parecia funcionar igualmente bem… mas a coisa foi em frente.

Motivação Inconsciente deu “Mestre de Etherium”, cujo efeito de jogo era “o poder e a resistência de Mestre de Etherium são ambos iguais ao número de artefatos que você controla” (o que pareceu, a Kyua, corroborar a visada da Casa 2) e a frase era “somente uma mente livre das preocupações da carne pode ver o mundo como ele realmente é” (o que lhe sugeriu a hipótese de que o interesse do Jade era atingir outro grau ontológico). Influências Passadas, “Transcendência”, sem citação e com as regras “você não perde o jogo por ter 0 de vida ou menos pontos de vida; quando você tiver 20 ou mais pontos de vida, você perde o jogo; toda vez que você perde vida, você ganha 2 pontos de vida para cada 1 ponto de vida perdido; o dano causado a você o faz perder vida” (que o levou a concluir que o Jade era de uma substância inadequada à morte).

(Seriam as suas motivações inconscientes os objetos que você acumulou? Fácil nos vem uma crítica a esse materialismo algorítmico que se visibiliza em ti — vem fácil, claro, porque é uma perspectiva lugar-comum, um clichê; mas não diz Magnólia que só os clichês são verdade?) “Vocês não sentem no peito que alguma coisa bateu? Esse é o sinal de que estamos no caminho. Se não der a epifania, precisamos inventar outra descrição”. Kyua emprestara esse método da interpretação de sonhos de Irvin Yalom. No caso da análise das vidas, o discurso de quem joga as cartas ou quem analisa o sonho trisca no inconsciente quanto o sentimento do analisando diz que é assim. Nessa especulação sobre o ausente, como poderíamos aferir a correção das teses? (Avante: teria sido decisivo no seu passado que a abundância lhe aterrou e que a estreiteza lhe empurrou adiante? É só você quem pode dizer se essas formas de discorrer encontram confirmação em você.)

À Casa 6, Futuro Imediato, coube “Sipaio da Lança Solar”. Efeito: “Enquanto Sipaio da Lança Solar estiver equipado, ele terá iniciativa e vínculo com a vida”; frase: “Sem seu líder Raksha, os leoninos dividiram-se em dois bandos: um apoiou o kha regente, enquanto o outro se rebelou furiosamente” (fora a confirmação que a regra dava a cartas anteriores — o Jade era crucialmente a sua atividade — o restante indicava que eles estavam à beira da ruptura, o que nos era positivo). Já A Atitude do Consulente recebeu “Mago-Sifão de Urborg” — “descarte um card: cada um dos outros jogadores perde 2 pontos de vida. Você ganha uma quantidade de pontos de vida igual à quantidade de pontos de vida perdida dessa maneira” (outra vez a característica vampírica do Jade) e “eu me tornei uma espécie de gourmet. Cada alma tem seu próprio sabor distinto. A arte está em convidar a companhia certa para o banquete” (no que ele identificou o objetivo do Jade: perseguia os potentes porque os devorava de alguma forma). Eram as cervejas o que estava a facilitar o convencer-se de tudo isso?

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Sim, pois ocorria novamente, mudávamos do tédio cético a um interesse razoável. Era curioso como, conforme Kyua avançava na construção do seu discurso, se tornava cada vez mais difícil imaginar que não fosse tudo como expunha. Alinhavando um delírio ao outro, bordando superintepretação em superinterpretação, surgia algo com toda aparência de racionalidade, acima de tudo sedutor. E no momento que nos opusemos às suas conclusões, propondo outras possibilidades, já havíamos sido derrotados em um nível mais fundamental: estávamos convencidos do potencial do sistema. Claro, podíamos negar a realidade e a utilidade disso tudo, teimar em dizer que não passava de uma grande bobagem — não obstante, a cada carta na mesa, a cada gambiarra coerente, crescia o custo da incredulidade. A fé é uma aposta, argumentou Pascal; e aos poucos parecia que íamos perder.

Veja, essa já é outra maneira de ver a coisa toda — deixemos de lado a revelação da subjetividade. Passemos à fé como um processo feito de microdisputas retóricas. Não uma definitiva, pesadíssima aposta pascaliana, mas um curso de pequeninas apostas cujo preço individual é irrelevante. Custaria mais esforçar-se para ganhar; não custa nada perder. Míseros mistérios se apresentam um por vez e baixamos as armas à primeira resposta conclusiva, “até que faz sentido”, e nisso toda a estrutura da compreensão já sofreu uma modificação de base. Ainda mais, o prazer de preservar nossa força, de evitar o cansaço, torna-se — ao passo em que se multiplicam as soluções místicas e se acumulam os benefícios microscópicos de aceitá-las — um atrativo por si só. Conversão da fé inofensiva inicial em má fé: fuga do uso da força, fuga de sermos por inteiro. Prazer da fuga.

Casa 8 (Visão das Pessoas Próximas) | “Peneirador Luvalua”: Toque Mortífero (toda vez que esta criatura causar dano a outra criatura, destrua aquela criatura.) | “Os peneiradores vivem para eliminar os seca-olhos, criaturas que os elfos julgam feias demais para existir.”

(Certamente era o que todos sentíamos: o Jade movia uma guerra de extermínio contra todos nós.) Avaros e preguiçosos de nós mesmos, empanturramo-nos de soberba através da fé. Até que ela nos ultrapassa e desenvolve sua própria gula (e, na falta de mistérios reluzentes, começamos a encenar fabulações ocas para alimentá-la), sua própria luxúria (o gosto por não ter de agir se torna a paixão por não agir, uma ética do não agir). Tanto ouro falso nas nossas barrigas exigirá ser protegido; daí todas as práticas da ira. Aos que se formem noutras economias da energia de si, só restará a inveja. A crença, assim, se concretiza autoimune. Antes o mundo, então o mundo gradativamente povoado de explicações ardilosas do mundo, por fim um invólucro ao redor faz às vezes de mundo.

Casa 9 (As Esperanças e os Temores) | “Selo do Destino”: Sacrifique Selo do Destino: Destrua uma criatura alvo que não seja preta. Ela não pode ser regenerada. | “O olhar de um Basilisco é muito eficaz, mas desfazer-se dos cadáveres é uma tarefa cansativa. É muito menos trabalhoso dissolver a vítima por inteiro.” — Szadek

(O poder do Jade é fatal, mas a destruição é tanto boa nova quanto maldição?) E como se enfrenta um sistema com tal constituição? (O Jade não é nada sem a sua atividade, mas a sua atividade reduz as coisas todas a nada; é, então, inerentemente, suicida?) Talvez com uma estratégia idêntica, uma razão de guerrilha: vencendo pequenas batalhas em prol da empiria, distribuindo postos de vigia da lógica, estabelecendo zonas francas da dialética: um pensamento-cupim. (Eles têm tudo a perder e não tem nada a perder, ou menos: são cegos e inertes. Portanto deixar de ser visto é simples. Fugir da sua linha de ação é simples.) “Faz sentido”, diziam tanto a tanto, “faz sentido”, como a cada passo desta argumentação, com seu ritmo, com sua força de tração. Destarte surge um heroísmo da razão. Com a mesma gula? A mesma luxúria? Semelhantes ira, inveja, avareza e preguiça?

Casa 10 (Desfecho da Situação) | “Decreto de Crufix”: Lampejo. No início da etapa de compra de cada jogador, aquele jogador compra um card adicional. | “O conhecimento é cruel. Ele vai partir o seu coração e testar suas alianças. Tem certeza de que deseja esta maldição?”

Sim, eu respondi em minha mente de pronto, sem escutar o que Kyua prognosticava sobre a nossa missão; retornei minha atenção a ele, perdido na conversa. O espadachim compreendeu e disse:

— Estaremos seguros assim que do lado de dentro. O Jade é vazio.