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episódio 29 – Eternidades das Preliminares de Partida

Era no decorrer da conversa entre as cartas lançadas à mesa que eu exibia esses pensamentos sobre religião; divinação concluída, continuamos. Fora o que possa estar correto nessa argumentação, me seduzia fundamentalmente provocar Jintoku. Mais do que contrariar sua fé, o sabor da coisa estava em torcê-la entre os dedos. Um iluminismo ateu como forma de realização narcísica; mas, acima da erística, o fulgor do fato de que a amizade compreendia essa espécie de ferocidade sem ceder, como o globo de vidro, clichê natalino, contém um fenômeno natural, o soçobro da neve — e, mastigando essa metáfora, poderíamos imaginar ainda outras miniaturas, esferas capazes de englobar pores do sol, eclipses da lua, vulcões adormecidos, buracos na camada de ozônio. Ao longo da noite, assim, tanto chovemo-nos granizo quanto refrescamo-nos brisa de mar. Universo declinando-se.

— Agora, você só falou tudo isso pra se justificar por não ter rezado…

(Esta mesa, este bar — isso não se repetiria: logo nos separaríamos indefinidamente. Quanto tempo dura um universo?) As provocações de Kyua procuravam o sentimento atrás da ideia, o que de cara já me irritava: a ideia subsistia só ideia. Agora era como se eu não pensasse que a crença dá espaço a uma degradação progressiva do pensar e do agir — era como se eu tivesse racionalizado que dessa forma fosse para esconder uma frieza ou algo assim. A realidade, para Kyua, era a sensação; a razão vinha, no mais das vezes, para tapar o sentimento com a peneira. “Você quis rezar”, ele interrogava, “você se sente mal agora por não ter rezado?”. Não quis. Não me sinto. “Mas e a história que você disse que quer escrever, não é uma forma de reza?” Pode ser, aliás agora me lembro do que Clarice disse, rezar a si mesmo com desprezo. “Hmm, tem algo aí mesmo então. O que você sente?”

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(Você joga esse jogo todos os dias. Há tantas, tantas fôrmas disponíveis para preencher e esgueirar-se fora do que se é, desbravando, todavia, adentro. Antes, espalhado e inconsistente na convicção periclitante de um eu; agora, aconchegando-se em um símbolo, juntando características de si em um todo coerente. Caber no Leão, ver-se de um só golpe em um descritivo de poucas linhas ou em um gráfico deslumbrante, sentir suas qualidades boas e más conectadas umas às outras em um complexo indiscernível como o de uma demonstração lógica, ganhar até algo como uma teleologia pessoal, eu sou assim, eu serei assim; e daí a chance de pensar a si: se sou assim, se serei assim, tais e tais opções estão disponíveis e outras não. Mas os signos são muito rígidos, pouco produtivos.

Seria também capaz do mesmo um livro?

Seja como for, toma a tua mão: motivação inconsciente: “Batedor Avançado”; influências passadas: “Mamutes Lanosos”; futuro imediato: “Academia de Nefália”; atitude do consulente: “Escorregão Trágico”; visão das pessoas próximas: “Pacifismo”; esperanças e temores: “Aboshan, Imperador Cefálida”; desfecho da situação: “Fluxo de Ideias”.)

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Como aceitar ou suportar ou admirar o paradoxo das várias pessoas que existem a partir da mesma pessoa em diferentes instâncias de relação, eu me perguntava. Eu já reconhecia, espaçadas, facetas do velho Kyua neste Kyua novo. E frações deste Kyua iluminavam outras daquele. Logo, essas figuras desfocadas sobrepostas seriam uma só, e eu perderia o saber das variações contextuais; teria só um Kyua, producente dos dois casos. Jintoku, por outro lado, jamais gerou em mim processos do gênero — o modo como se comunicava de longe rimava fácil com a performance de si que fazia ao vivo; o humor frívolo e caustico, a erudição a postos, a seriedade bonachona — naturais, sem erro.

Era curioso vê-los juntos, como se se misturassem elementos químicos cuja soma era desconhecida. Não opostos, algo como caos versus ordem. Muito mais: um, caos na ordem, outro, ordem no caos.

Fruídas cachaça, carne, batata, cerveja, maconha, à beira da missão suicida ríamos despreocupados. Dormimos na toca do espadachim, ele na cama, nós em colchões no chão. (Quanto tempo dura um globo de neve?) No meio da madrugada, Jintoku acordou, perturbado. Tivera o sonho que segue.