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episódio 30 – Sonho do Dragão Descascante

Vivia (sabia, no sonho, que sempre houvera vivido) em uma caverna atapetada de ouro — moedas, troféus, punhos de espada, armaduras —, onde aqui e ali brilhavam pedras preciosas com os olhos de demônios. Convivia (sabia, no sonho, que sempre houvera convivido) com um dragão: o chumbo no focinho, o sangue nos olhos, um corpo alongado e flexível recoberto de escamas, sustentado por pernas como que de aranha. Suas asas morceguentas raspavam a rocha, e do seu nariz fumaça negra e espessa saía continuamente. “É difícil respirar neste mundo, faz-se o possível”, Jintoku lamentava-se a si mesmo, conforme se preparava para, como em todas as noites, assassinar o dragão.

Reunia diariamente breu, gordura e pêlos de animais variados, o que cozinhava até que se tornasse uma massa oleosa e fedida. Modelava esse material em bolas úmidas e peguentas e metia na boca do dragão. O animal se contorcia, espirrava fogo e acabava morto feito barata, virado para cima. Na manhã seguinte (não é curioso que se possa dormir e acordar durante um sonho?), estava lá como se nada tivesse ocorrido. Então mais colofônia, lipídio, queratina, borbulhando, evaporando, a pasta mastigada molemente por dentes monstruosos, as contorções epilépticas, a morte. E aí, na próxima manhã, a vida. Por uma eternidade — mil duzentos e noventa dias — isso se passou.

***

Até que, uma vez, despertando de sonhos dentro do sonho que não eram tranquilos ou intranquilos, da nulidade narrativa acordou ele próprio o dragão. Gatinhou em pavor para fora da caverna, cauda chicoteante atrás, rasgando a terra com os unhões. Na folha de água de um lago, teve confirmação. Chorou grossas lágrimas que, em contato com as escamas, entravam em calefação. Sentia o magma percorrer suas veias, disponível, potente. O fogo à ponta da língua. Amedrontou-se mais, e orou.

Suas preces foram atendidas. Foi visitado por um homem com vestes de linho, brancas e beges, com um cinto de ouro à cintura. Sua carne era uma espécie de cristal levemente colorido, verde ou azul, dependendo da parte do corpo. A cabeça não tinha boca nem nariz; exatamente oval, transparente, via-se dentro dela, no oco, uma contínua tempestade; pelos vazados que faziam as vezes de olhos, o choque dos relâmpagos fazia explodir luminescências como tochas de fogo branco. Falava com a voz de mil homens e orientou Jintoku: “Tenha força, tenha força”. Com uma adaga de bronze, pôs-se a arrancar uma a uma as escamas do dragão que meu amigo era.

Por semanas estenderam-se essas sessões extremamente dolorosas de limpeza; à noite, as escamas se regeneravam, e era preciso sempre recomeçar muitos passos atrás do que se havia avançado. O intercessor, não obstante, persistia. Depois de mil trezentos e trinta e quatro dias, Jintoku não pode mais. Sacudiu as asas enrijecidas pela falta de uso, sustentou-se periclitante no ar e fugiu. “É difícil ser quem se é neste mundo, faz-se o possível”, justificou a si mesmo. Voou longe, longe, o mais que pode, distanciando-se das suas orações atendidas, do alcance do seu Senhor. Não poderia mais ser visto por ele, ser monitorado por ele, agora trafegava em direções impensadas.

Mas, sob as primeiras estrelas, notou-se pequenino. Apercebeu-se de que o horizonte delineava um território. Que o mundo sobre o qual voava era — todo abrangente — apenas a palma do seu Deus.