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episódio 31 – Invasão ao Sanatório Jade

Correntes sacolejavam entre braços, correntes arrastavam consigo a grama da colina entre pés. Em filas longuíssimas eram escoltados inúmeros prisioneiros, oriundos de várias direções, afunilando-se no Sanatório Jade como se conectam ao corpo as patas da tarântula. Os soldados atiçavam-nos com baionetas, puniam a lentidão com insultos e agressões, debochavam daqueles cujo poder não significa nada agora. Super-heróis; coelhos da Páscoa; católicos canonizados; celebridades mortas jovens; mártires dos quais cartilhas ainda falam; filósofos que foram inventados por outro filósofos por motivo de argumentação; escritores encardidos com a sua imortalidade; personagens originais dos contos de fadas estufados e deformados pela soma de si a todas as suas releituras ao longo das épocas; amigos imaginários e respectivos criadores; monstruosidades ou delicadezas criadas por esquizofrenias várias; corporificadas ideias tidas num instante, lembradas só levemente; os deuses esquecidos idolatrados pelos dinossauros.

Seguiam escravizados como redentos foram os animais à arca de Noé. Não podíamos salvá-los. Nós, em número pequenino, só podíamos assisti-los mastigar a dor e deixá-los. Toda fantasia morre hoje e aqui, toda fantasia morre hoje e aqui, eu pensava, e nada mais eu podia que testemunhar.

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O estratagema de Kyua nos levou cuidadosos pelas áreas menos vigiadas e pelos pontos cegos das torres de vigia. O ritmo da atenção se estabiliza em rotinas: o soldado averigua durante um tempo costumado um certo espaço (digamos, durante doze compassos), assegura-se de certa continuidade (no blues mais básico, o primeiro acorde mantido durante 4/12, o segundo e o primeiro, dois para cada, 8/12, aí terceiro, segundo, primeiro, terceiro, 12/12 — permanência e variação programada), enfim se dá por satisfeito e segue ao próximo ponto onde deve repetir-se. Então: aguardávamos. O mundo respirando do seu jeito e nós andando nos vácuos entre expiração e aspiração.

O cheiro das plantas próximo e úmido fazendo cócegas às narinas: aguardávamos. Os joelhos na lama, as costas contra as viaturas, o sol subjugando as pálpebras: aguardávamos. De vez em quando, tornava-se necessário desacordar um dos militares; o mata-leão os pegava desprevenidos, o sufoco não deixava soar o alarme, o pescoço quebrado garantia a colaboração. Avançávamos. Pouco a pouco, às vezes chamando atenção demais, improvisando esconderijos onde o arrefecimento das patrulhas demorava uma vida até o seu ápice. Avançávamos. (Não só em música, o tema deve ser desenvolvido, a dissonância solucionada; em Akira Toryiama: permanência — duas procuras, uma gradativa, que deve prender à contagem, um até sete, outra, perene, que deve prender a um ideal em construção, por exemplo, a fraqueza engatinhando para a força; e variação programada — o motivo novo para ir número a número até o desejo e para grau a grau debater-se à areté). Entramos.

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Dentro dos corredores, era como se a guarda perdesse a existência. Primeiro, decaíam os detalhes dos rostos: tornavam-se manequins que marchavam. Depois, nem olhos, nem boca, nem nariz, nem qualquer atributo, reduziam-se a manchas de cor ambulantes, vermelho, verde, cores de pele. Então se transpareciam e por fim evanesciam. Não obstante eu sentisse ainda a sua presença, não parecia que podiam me ver ou me afetar (isso seria desmentido); com certeza, ao menos, não tinham mais uma capacidade contundente de agir. Kyua ficou cheio de si por estar certo, até resolveu explicar:

— A boa notícia – começou ele – é que o Jade é oco. Sugam realidade dos mundos para que viajam. Nos próprios espaços, não tem o que chupar, somem.

Por que, então, os prisioneiros se mantinham nas suas filas, por que se adequavam às suas celas, eu quis questionar. Conforme cumpríssemos as nossas missões, nós os veríamos sem escolta, pondo a si mesmos sob grilhões, encolhendo-se no canto dos quartos à frente das grades escancaradas. Nós nunca nos livramos, depois de compreendê-la, da tristeza de saber que os seres mais autênticos do nosso território deliberadamente se deixavam diminuir. You do it to yourself, and that’s what really hurts. Mas o que eu perguntei foi: e a má notícia? Kyua sorriu, cínico:

— É que são parasitas de apocalipses. Pressentem, se estabelecem e consomem localidades frágeis. A má notícia é que nosso mundo está mesmo acabando.