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episódio 32 – Jesus Acorrentado Liberta dos Grilhões

Os calabouços eram um grande galpão onde se multiplicavam celas cúbicas de vidro. De pé, fixados em um gesto, os olhos estatelados, os encarcerados eram alheados do tempo. Sua excepcionalidade neutralizada, borboletas alfinetadas em almanaque. O Jade cometia uma taxidermia de carne viva. A fantasia morre aqui e sempre, a fantasia morre aqui e sempre, pensava, mas tudo o que eu podia fazer era percorrer os corredores sem poeira, ponderar sobre o eco dos meus passos, dar de comer ao desespero. O plano mostrou-se exato. Chegamos ao quadrilátero onde estava Jesus Cristo.

— Meu Senhor!

Jintoku caíra sobre os joelhos. Jesus, na posição do crucificado, mas sem cruz, os olhos muito abertos contemplavam qualquer infinito miserável à frente. De repente, o monstro rosa ergueu-se e socou o vidro; a superfície se desintegrou uniforme, caindo como uma cortina de pó cristalino aos pés do meu companheiro. Ele arrastou o cativo para fora das esquadrias de metal, sentou-se e o acalentou. A cabeça coroada de espinhos em seu colo. Rezava, em um murmúrio frenético e incompreensível. “Como adorar um deus tão fraco?”, eu perguntei sem pensar. Jintoku parou um momento para me rebater: “Como mistificar pela eternidade a própria fraqueza?”. Deus fez-se homem, ele quis dizer, em um sentido muito mais profundo do que o da cópia da compleição.

Por três dias observamos a oração ignorar com veemência a sua própria inutilidade, até que enfim o fracasso se abateu. Jesus piscou debilmente; mais alguns segundos e a inteligência voltou a ocupar a sua expressão. Homem, pardo, de cabelo curto e olhar inquietante, feio, com mãos marcadas de trabalho, pés cheios de calos das estradas batidas. Pressentia-se seu senso de humor e seu senso de confronto — e sentia-se debaixo da pele que ele encarnava o que pudesse ser o divino. As pupilas fixas do meu amigo denunciavam o amor e o pavor a que estava reduzido. Ter no colo, segundo sua fé, a essência do universo. Jesus olhou-o nos olhos, “obrigado”, e ergueu a mão lenta, direita, e dois dedos estendidos, algo dobrados, leves, tocaram o rosto do crente.

O corpo de Jintoku expulsou-se de si. Deslizou violento acima, troposfera, estratosfera, mesosfera, termosfera, exosfera — e voltou. Despencou a alma transbordante de retorno ao corpo oco, agora a carne pesadíssima, opressa por uma gravidade hiperbólica, esmigalhado, humilhado, consciente do que é em relação a. Uma voz também percorre seus neurônios, elétrica e terrível: do you not love me am I not worthy will you love your own life above me. Jintoku chora. Jintoku ri. “O que ele lhe fez?”, eu lhe perguntei um dia, “aonde ou ao que ele o levou?”; e meu amigo respondeu:

— Eu ainda tenho medo de pensar no que ele dirá para mim e no que dirá de mim.

De nossa parte, o que vimos foi Jesus bomba de luz evanescer no espaço. Jintoku continuou no chão. Nos disse para seguir em frente, que estava terrivelmente justificado e feliz, que precisava de tempo para desacostumar-se dessa fé estável e funda. Nós o deixamos.

***

O desenrolar da aventura não permitiria que nos reuníssemos novamente tão cedo; antes de vê-lo outra vez, eu escalaria a torre, me moeria no lombo da cobra e assistiria ao debacle dos planetas miniatura — e ainda mais coisas para além desta história. Assim, apenas anos depois Jintoku me contaria o que ocorreu mais tarde naquele dia.

Ainda era, para ele, como se o Cristo estivesse ali. O conforto das farpas de saber-se nada ainda lhe compunha e soçobrava. Todos os seus gestos de força eram revelados como prestidigitação. Poderia continuar enganando aos outros e a ele mesmo, poderia voltar a andar entre os homens recorrendo às farsas e às evasivas de sempre. Mas agora era como se observasse o seu eu eficiente à sua frente, e, vistos assim distanciados, os seus estratagemas e fugas de primeiro minuto pareciam — indignas? Bastaria reparar a dignidade por linhas tortas. Não se tratava tampouco de enfim se reconhecer em pecado: pode-se armar para si um comércio de desvios e compensações que dure uma vida. O que lhe ocorrera fora a seguinte epifania: não havia agência nos seus erros. Lançava seus erros adiante como batedores; estabelecia campos avançados de erros, deixava que atuassem em seu lugar. Eram golens, escravos que o imobilizavam em pujança. Como retornar-se à vida, como retornar os golens à não-vida? Escreveu na testa de cada qual seu nome próprio. Desabaram em poeira.

Golens então; agora, ele, gal’mi. Humilhado, pó; recomposto: argila. Meu companheiro finalmente pode sentir a energia voltar aos seus membros. Abraão teve de chegar às margens de matar o filho; a Jintoku foi suficiente e necessário assassinar o seu senso de autoproteção.