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episódio 33 – Líquido Amniótico no Seio do Robô

Kyua caminhou convicto pelos corredores, sem fazer menção de checar o mapa, como se percorrera aquilo — as trilhas ao “futuro”, sua meta anunciada — vezes inumeráveis. Como se prosseguíssemos em direção ao futuro irremediavelmente. Atravessamos uma porta adereçada de turquesa, ouro e diamantes. Chegamos a uma plataforma pintada com listras vermelhas e pretas, suspensa em uma tal altitude que não se distinguia o fundo. À meio caminho das suas extremidades, via-se a cabeça roxa de um monumental robô. Seus olhos, verdes, chapados, eram agressivos e inexpressivos.

— Isso vai ser legendário, exclamou Kyua.

Contornando o titã pela lateral, acionou um botão. Um compartimento cilíndrico foi expelido da sua nuca. O espadachim se voltou a mim: “Só tem espaço pra um. Mas, daqui a um tempo, se você ligar de novo, a cabine vai sair e vai estar vazia. Aí você pode entrar, e nos encontramos do outro lado”. Não posso, você sabe, tenho tanta coisa a cumprir, roguei. “Massa”, ele retrucou, “nos encontramos do outro lado, então”. Saltou para dentro da nave, que se fechou consigo e se introduziu no corpo.

***

Também só soube do desenrolar dessa aventura muito tempo depois.

Dentro do cilindro, havia pouquíssima luz. LEDs débeis deixavam ver manches, esquerdo e direto. O guerreiro segurou-os; um pressentimento lhe perturbou os dedos como eletricidade: o maquinário era vivo, expectante. Todavia, ativou a estrutura integralmente. Um líquido alaranjado, ejetado por todos os lados, preencheu toda a cabine. Ao invadir as vias aéreas, proporcionou um curto sufoco — logo se percebia que, estranhamente, ainda era possível respirar. O toque da substância sobre a pele, sua circulação através dos pulmões ao sangue e assim a todos os órgãos internos, fazia o corpo esquecer da sua identidade. Kyua era agora como um quebra-cabeça a ser montado. Até mesmo os seus conteúdos mentais boiavam dispersos. Onde é quem estava testemunhando essas coisas? Uma liberdade tremenda ali era oportunizada: qual alucinação iria performar?

Digamos que a seguinte: despojado de tudo, nu, agora pontinho imerso em um oceano de vitalidade concentrada. Laranja carregado, pulsante. Não era como nadar: era como atuar sem peso. Brincava sob a ausência de gravidade, os pés para cima, a cabeça para o chão (mas tais palavras colapsaram). Era tudo potência, mas no interior do riso havia, contudo, outro burburinho… chilreios, ronronares, zurros, sim, porém não discerníveis, um amálgama animalesco, uivo, guincho. Estavam escondidos (o que supunha que ele fosse algo como um protagonista) ou só estavam, latentes como lhes cabia ser? Balidos, gritapos, não, nada definível, mais a percepção da própria categoria do ruído. Um deles se deixou ver, não obstante; um peixe pequenininho, à guisa de vaga-lume, logo ali…

Como assim? Assim: aparecia a tempos, saltante, lampejo na escama, e voltava a afundar invisível. Eis que pulava — e tornava a mergulhar. Kyua sabia que não era apropriado pensar: seguiu o peixe, até que o bicho tomou conhecimento dele. Virando-lhe o corpo, a nadadeira atrás sem estancar as sacudidas frequentes, não desapareceu mais. Sua boca abria e fechava compulsivamente.

— Esse trem aqui é tudo metáfora que eu tô ligado.

Se tivesse um cigarrinho aí ia ser mais fácil digerir o negócio. “Bom, tenho de me virar.  Você só pode ser uma representação do inconsciente…”. A boca abria e fechava expressivamente? “O que é que meu inconsciente está querendo me dizer…”. A boca abrindo e fechando silente.

***

De repente, identificou naquela síncope uma mensagem: “Eu posso te derrotar”. E se assustou. “Eu posso te derrotar”, era um desafio ou uma constatação? O espadachim não os vê, mas na extensão ao redor despontam figuras fantasmáticas, homens, mulheres, que falam baixinho, ardilosos; todos enunciam “eu posso te derrotar”, embora com outras palavras, outras histórias, outras acusações. A mudez do peixe, o coro opressivo, seus sons volumosos intensificavam-se e atenuavam-se. Tentou opor um “eu posso lhes derrotar”, mas isso pareceu uma bravata até para si. Tentou o “pode, sim”, e foi atravessado por um frescor. Escorado nesse tipo de clareira, dedicou-se a tomar notas.

Mais um dos seus instrumentos de magia? Afinal, se registrava “hoje, eu pude ser derrotado”, uma mudança fundamental havia sido executada. A falação tão múltipla obstava com esse saber simples. Mesmo quando a cacofonia alternou sua linguagem — discorrendo “seria melhor ter seguido outro caminho”, “é isso o que você é e não mais”, she said: you aren’t never going anywhere — ele soube displicentemente dispensar toda a sua semântica, registrar somente as linhas de força, para cima e para baixo. Mais ainda, mais fundo: importava tampouco a oscilação, interna ou externa, o que era decisivo era o ato de observar-se. O olho dele sabendo: hoje isso, hoje aquilo. Ajustando-se, criando-se para depois: “O devir não te pega se você é movimento também”. Como? Me dê uma alegoria.

— Lá no topo é tudo paralisia e medo da descida, da ladeira. Deslize.