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episódio 34 – Prazos de Validade da Magia

Sim, em nenhum lugar pareciam estar os combatentes de Jade. Mas gradativamente a sua presença invisível foi se tornando mais insidiosa: sua intenção me tateava, eu respirava um ar distorcido pela sua avidez. Ignorei os sinais disso o quanto pude, mas a partir de determinado ponto, um certo peso nos meus membros se tornou intenso. Tratava-se de uma infecção, de alcance crescente. Em pouco tempo mais, a sensação se elevava a paroxismos — tamanha força tinha que me fazia cair de joelhos — para, súbita, desvanecer, como milhares de moscas que num baque se afastassem de um cadáver. Segui pelos fluxos e refluxos dessas investidas fantasmas; talvez por sorte, alcancei o meu alvo.

***

Eram marrons claras as escadas de pedra pelas quais desci. Talvez nem tanto marrons como beges, ou cor de oliva… acima da entrada, uma cabeça monstruosa, olhos redondos vidrados e abaixo deles

asas ou bigodes, asas-bigodes, agitando-se sobre os punhos em formato de soco com que se apoiava nos pilares aos lados da porta, os quais formavam com ela um triângulo escaleno. Esse limiar levava a um jardim: seis árvores de um estranho tronco triplo e convoluto, uma para cada face do polígono à esquerda e à direita; um gramado verdinho, alagado, seguindo o círculo das árvores, por uma poça da água, não, por um ribeiro rasíssimo do qual não descobrimos a nascente; no centro, três pilastras bordeavam um pátio com um desenho esculpido, sol com ponto final no centro, sol-olho, oito retas fazendo as vezes de raios de luz. O local estava repleto de outros com a mesma fantasia que eu.

Você se lembra. Chapéu cônico, calças listradas, cinto de fivela enorme, casaco de mangas dobradas, luvas enrugadas sobre os dedos. Eram todos assim, com suas pequenas variações de vestimenta, de cores, de tamanho. Uma marcante distinção, contudo: não tinham, ou não exibiam, rosto. Sombras bruxuleavam em torno de olhos amarelos vívidos como lâmpadas fluorescentes. Com receio, segui até um deles; a criatura foi como que ativada pela minha presença.

— Como você sabe que existe? Talvez nós não existamos…

O quê? Me diga o que são vocês. Me diga onde estamos. Mas o sujeito só parecia capaz de repetir a sua arenga, “como você sabe que existe? talvez nós não existamos”, “como você sabe que existe, talvez nós não existamos”. Andei até o próximo, sobre o qual causei o mesmo efeito disparador: “Ei, você sabia que o tempo flui igualzinho à água?”. E mais do que isso não fui capaz de arrancar dele. O próximo exclamou: “Nós só podemos continuar vivos por um certo período de tempo”; e, adiante, outro: “Talvez nós sejamos bonecos criados para servir aos humanos”. O ser dessa gente se reduzia à performance dessas frases às quais tinham sido incumbidos por algum programa. A dois deles uma missão diferente tinha sido dada. Pareciam conversar. Ativei-os indo até eles:

— É este quem veio aqui com aqueles humanos?

— Ele é ok. Veja os seus olhos. Ele é atento, assim como nós.

Gesticulavam na minha direção. Observavam-me acurados. O segundo resolveu me explicar algo:

— Isto aqui é um… qual é a palavra?

— Um cemitério – respondeu o outro.

— Certo. Um cemitério.

Como um golpe no estômago veio a recrudescência da infecção. Cambaleei e cai, sustentando-me com as mãos. Minha cabeça pulsava quente e dolorida, grande tambor atrás dos olhos.

— Nós nos tornamos atentos um dia, cada qual em diferentes circunstâncias.

— Você se lembra de ter nascido?

Uma batida, duas batidas, as pupilas em febre, as lágrimas. Três batidas. Eu vomitei aos pés dos dois magos de sombra que conversavam, entrecortada pela minha tosse eu escutava sua voz monótona. Diziam: “Muitos dos nossos pararam de funcionar recentemente. Os que foram produzidos primeiro pararam primeiro. Varia um pouco, mas a maioria para de funcionar um ano depois da produção”. Oito batidas, nove batidas — por que não morrem agora, então? — a raiva um paliativo para a minha dor, ela mobilizava algo que eu cria obliterado, kasshoku, cobras de tinta devorando as piranhas do nada, anticorpos ou primeiros invasores contra os invasores tardios. Eu suava, trêmulo.

— Mas viver nesta vila com todo mundo me enche de alegria. Não é o mesmo para você? Viajar com os seus amigos dá sentido à sua vida.

E doravante, brinquedos de corda exauridos, passaram a reproduzir suas falas, não é o mesmo com você?, embalando-me conforme eu afundava nesse pesadelo, você se lembra de ter nascido?, eu o palco de uma disputa, qual é a palavra?, eu um personagem como eles porém com uma habilidade retórica maior, um cemitério, qual é a palavra?, você é atento, assim como nós.

***

Despertei. O tormento passara. Abri os olhos. Negrume.

— Nos enganamos a seu respeito.

Negrume; e essa voz… sim, a minha própria. Mas não era eu.

— Não divisamos de início que você era o comburente. Agora está claro.

Senti enfim minha bochecha contra a grama e, abaixo, a pedra. Tive de me esforçar para mobilizar as minhas mãos. Senti o chão nos dedos. Forcei-me acima.

— Não é impossível capturar um comburente. Sim, sempre trabalhoso. Consequentemente, sempre recompensador. Mas a intraexegética agiu preemptivamente no seu caso.

Eu estava de pé. Agitava os braços no ilimitado. Não conseguia falar. Minha voz estava mesmo fora de mim? Fechei os dedos num punho e avancei contra a fonte do som. Varei o vento.

— Talvez ainda haja uma chance para nós, tentaremos, mas se julgue vencedor.

Ele riu um riso meu, adoçado com uma ironia minha. Ele dirá: é uma vitória de Pirro…

— É uma vitória de Pirro, como uma de suas expressões disse. Embora você esteja errado quanto a sermos “parasitas”. Bem. Não se podem salvar todos os mundos. Vá!

Silêncio. A sensação do espaço sem ocupantes. Ele (?) me dera permissão ou declarara desistência?

Eu tinha de sair dali, de todo jeito. Cheguei à parede; tateei as suas formas geométricas até alcançar uma ausência. Era o lado oposto do octágono. Uma saída. Tropeçoso, desesperado, eu sai.