Início » episódio 35 – Abrigo Contra a Tempestade

episódio 35 – Abrigo Contra a Tempestade

As sombras eram consistentes como fumaça e se arrastavam sobre o meu rosto como serpentes. O tempo fez com que se rarefassem o suficiente para que eu pudesse enxergar através de si um pouco — ou me acostumei a ter um mundo turvo. As sombras se entranhavam também em minha carne, enrijecendo os músculos, arrancando o fôlego. Para avançar um pouco que fosse eu tinha de extrair de mim toda força física e toda potência do Qi. Gradativamente, fui-me tornando menos pesado ou me acostumei com o peso. Vaguei por dias pelo inóspito, reconhecendo nas águas de um lago e de outro que eu me tornara uma criatura sem definição. Até que avistei uma casa ao longo, e felicitei-me por poder parar. Era uma vista à beira-mar, águas claras de Parati banhando a areia fina, paredes brancas, janelas muito azuis, telhados marrons de Campos do Jordão, chaminés roxas. Uma alegria de Buenos Aires toda em torno. Então reencontrei, silhueta na luz do poente, Shiawase.

“Onde você esteve?”, perguntou ela. Muitos lugares, eu disse. “Você parece diferente”. Pois é. Acho que sim. “Você vai ficar?”. Por ora. Porém logo devo partir.

***

Algumas refeições atingem a dignidade de arquétipos. Nesta mesa em redor da qual eu me afeiçoei à família de Shiawase, um comum fora sendo criado novo a novo. O frouxo ritual que disto resultou efetivava-se entre câmara de descompressão e mirante. No almoço, tínhamos macarrão coberto de queijo, feito no forno. De sobremesa, sorvete — flocos, chocolate, morango —, em taças de plástico colorido. Nos fins de tarde, café com leite semidesnatado e pão, acompanhado de frango desfiado e mortadela. Todo o insosso contente do pensado “para sempre”; de tal consistência que até hoje a sua lembrança é sólida o bastante para que eu não só a reproduza como imagem, mas que adentre e respire um pouco do seu hálito, pavio aceso nas sobras da cera.

Era uma família grande. O pai era inventor; havia construído não só Shiawase como três irmãos, dois deles pequenos — um menino e uma menina, ambos de cabelos verdes e asas pequeninas com as quais borboletavam abaixo do ventilador de teto — e uma jovem, com quem toquei violão às vezes. O patriarca, humano engenhoso, após criar tanto maquinário externo, por essa época projetava um reequipamento de si: um exoesqueleto eletrônico recoberto de marfim de granito que lhe tornaria uma potência visível a quilômetros. A mãe também era inventora; sua obra, todavia, era a casa. Sob o porcelanato movimentavam-se sem cessar engrenagens conectadas por engenhocas de toda sorte a todos os móveis da residência. De tempos em tempos, a dona, tomada de inquietude, revolvia os locas determinados, sofás agora em ângulo reto com a estante, mesa de jantar dessa vez ao lado direito do televisor; no subterrâneo, os mecanismos e cabos elétricos ronronavam — ela agia como quem acertava um relógio ou como quem buscava a combinação que escancara um cofre.

Além deles, havia a avó, alta, magra, de saião, óculos de vidro côncavo escurecidos. Com seus passos largos percorria os sebos e brechós da cidade e presenteava a família com os achados. Discuti com ela política, e foi esse o acontecimento que tive de supervalorizar, essa a memória que fui forçado a ruminar para subverter à nostalgia o baque de quando a perdemos.

***

Shiawase era — como se torna claro em relação a todos nós quando vistos suficientemente de perto — um efeito da sua configuração familiar. O descanso na operosidade, de um lado, e o comodismo perturbado por solavancos sazonais, de outro, produziam uma eficiência de hipnose autoinflingida. Era forte ou resistente como quem prende a respiração debaixo d’água e conscienciosamente inerte como quem boia entre as ondas, o sol acima ofuscante; a mira entre calculada e intuída do atirador somada à cegueira no voo do projétil de efeito seguro. Conforme a observava, mais uma vez eu me encantava pela capacidade de trabalho de alguém; e meu afeto incipiente se estendia regiões muito antigas da minha simbologia particular. Eu me apaixonava pelo mesmo renascido do outro?

Sem dúvida, algo das condições de possibilidade do amor está nessa oportunidade de reencarnação do tipo de afeto que nos aqueceu antes, assim como na instauração de novas fontes de calor que o alimentam de forma oblíqua. Mas essas são, ainda, exterioridades. No limite, só é razoável dizer: eu me apaixonava, ação que regride aquém das designações de causas eficientes até uma singularidade tão irredutível quanto a alternância entre o sim e o não. Eu me apaixonava por que teria o que tive? Eu me apaixonava pelos novos lugares aonde voltar? Eu me apaixonava pela sonolência do carinho? Eu me apaixonava pela satisfação da minha idolatria a mim mesmo? Eu me apaixonava pelo ato de me apaixonar? Exaustão das explicações: seria igualmente fácil dizer: o amor veio pois a noite veio.

À noite, as ondas quebravam nos paralelepípedos da Praça Nossa Senhora Aparecida, em Santos. A menina esteve comigo frente ao mar insuspeitado, às florações de espuma suspensas no vazio; aqui um outro arquétipo esculpido? O banco de pedra curvilíneo, dois jovens, preservados doravante no pétreo das idealidades. Essa brisa de eternidade anuncia: a bonança que vem é da cor dos teus olhos castanhos. Mapeamentos da textura, lampejos do cheiro, intrepidez do gosto. Diluição. O oceano, estou certo, me ensinou algo, mas algo alheio a qualquer língua que eu aprendera.