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episódio 36 – Libertação dos Passarinhos

O amor é então essa aurora boreal que para se estender no tempo fará as vezes de âncora. Contudo, é um vetor entre outros; paixão na revoada das paixões, na competição entre as paixões, e em mim um apaixonar-se pela viagem, ou mais, pela transformação, recendia e retornava para conquistar as balizas mentais, inchar-se até ocupar o espaço completo da vontade. Esse gosto do transtorno era filho do mesmo dinamismo que havia dado condições de possibilidade ao amor; contanto forte, esse último tinha nele um oponente à altura, senão maior. Com isso eu digo: eu amo, tenho de ficar; com isso eu digo: eu amo, tenho de partir. Ama-se mais do que pessoas. “Eu amo” é um prisma.

Para acalmar esse paradoxo, passei a investigar as proximidades da casa de Shiawase. Esperava que em algum ponto do perímetro algo me indicaria onde procurar as demais esferas. Na solidão dos caminhos eu regenerava a minha capacidade de afeto, porém. Quando eu, sem entender, me via de volta, e, ainda mais sem compreender, querendo permanecer, eu sabia que algo em mim havia sido alimentado e que algo em mim agora tinha fome.

***

Em algumas dessas incursões, não obstante, Shiawase veio comigo. Avançamos pelos gramados sob os quais uma estranha terra se distribuía, em blocos quadrados, amarelos e marrons. Grandes flores com as pétalas em formato de estrela e totens primitivos com rostos esculpidos (olhos e bocas preto contornado por verde, alguns impassíveis, outros assustados) margeavam o percurso. Por aberturas na superfície descíamos ao subterrâneo onde estalactites de gelo pingavam sobre as nossas cabeças e grandes caranguejos vermelhos tentavam nos ferir. Saltávamos pelos suportes de toras amarradas de madeira que flutuavam sobre as cachoeiras, desviando das piranhas que pulavam bem alto para fora da água, destruindo as vespas robóticas que nos ameaçavam.

As aventuras agora não me aproximavam do objetivo, pelo contrário me afastavam dele, ou melhor, do doído incômodo de imaginar tê-lo à mão e não alcançá-lo, por que ainda me aventurava então? E ela, por que me acompanhava? Adquirimos o luxo da imanência: os percursos valiam por poderem ser percorridos. Equilibrando-se nos longos caules que serviam de pontes nas florestas, passeando em alamedas de plantas altas como árvores rodeadas de flores vermelhas, expressávamos que estar ali e ter estado lá bastavam-se. Preenchíamos a palavra “juntos” de sentido.

Foi nessas explorações sem alvo que nos deparamos com as prisões de passarinho. Eram estruturas de metal cilíndricas, com porta de vidro, pouco maiores do que um elevador mediano. Eram gaiolas. Não soubemos quem prendera os animais, se o exército Jade, se Kachiaru, se outro, mas nos demos a missão de libertá-los. Por semanas seguimos, aumentando a liberdade do mundo aos pouquinhos.

Pelos templos de povos antigos, feitos de blocos de pedra amarela com deuses remotos esculpidos, pelos complexos industriais de pisos e paredes metálicas em meio aos quais a cidade entardecia em laranjas escuros e claros, pelas plataformas acima das torres em construção que tremeluziam sob a ventania e as luzes da tempestade — quebrávamos os cadeados, estilhaçávamos as passagens, e de lá voavam pintassilgos, tico-ticos, canários, sanhaços, periquitos, bicos-de-lacre e uma hipérbole de espécies. Surpreendi-nos múltiplas vezes assistindo ao espetáculo de mãos dadas: as asas riscando gizes amarelos, verdes, vermelhos, marrons, brancos contra a normalidade.

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Então, quando aparentemente tínhamos cumprido a ordália, um susto no céu: eis novamente ele, eis o inimigo, rasgando uma avenida nas nuvens. No horizonte, a torre de Hermes erguia-se vertical. Tudo indicava que ele se dirigia para lá. A oportunidade da batalha de novo assomava.