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episódio 37 – Esfera de Sete Estrelas: Cícera

Retornamos sob essa sombra e quando chegamos tivemos a notícia: a avó de Shiawase falecera. O velório aconteceria naquele mesmo dia. A casa estava repleta de familiares.

Não havia o que o inventor pudesse construir; os maquinários se acumulariam tolos frente à tarefa de reparar o fim. Não havia rearranjo da casa ou da vida que a inventora pudesse empreender que fizesse o tempo girar em falso. Aproximei-me do cadáver no centro da sala, suas mãos sobre o peito, pousadas uma sobre a outra, a pele parda e as veias grossas, eu toquei uma delas e me deparei com uma nova qualidade de frio. Não o da pele resfriada pelo dia de inverno, sob a qual sem nos darmos conta pressentimos o movimento dos fluídos, o burburinho dos nervos e músculos. Um frio quieto e seco. A frieza de um objeto. O prurido que eu fingisse estar nele sendo apenas eu.

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Após o enterro, os pais de Shiawase me entregaram um pequeno baú que a avó havia deixado para que me encaminhassem. Dentro havia um bilhete — “(…) sei que procura coisas desse gênero; achei essa entre edições velhas de uns livros que eu tinha” — e, inesperada, a esfera de sete estrelas.

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Certos seres da infância e velhice crescem largando para trás da pele renovada, como um tapete de carne amarfanhada e mais ou menos peluda, a pele antiga. A epiderme se estende por quilômetros ao fim de uma vida; nelas os seus donos leem augúrios; nelas os demais inventam teorias e segredos. Quando morreu Cícera, avó materna da Letícia, pensei ter chegado pela primeira vez à compreensão do que era a morte. Não que eu não houvesse presenciado a morte antes. Pequeninho, contam de mim que frente à minha bisavó moribunda ou defunta eu perguntei: “A vozinha está dormindo?” (a história tem “inocência de criança” o suficiente para ser tanto verdade quanto mentira). Mais tarde, compareci ao enterro de um primo da minha mãe, Rubens, ainda criança, e, partindo de uma ideia do que era o comportamento correto para um velório, tentei me forçar a chorar (creio que consegui uma ou duas lágrimas). Mas essas experiências como se vê não ultrapassaram um turismo da morte. Certas serpentes-humanóides casam-se em uma cerimônia de troca e intercâmbio de pele. Comem o invólucro antigo do parceiro, costume que, manda a tradição, devem reproduzir frequentemente, alimentando-se do que o outro foi, até que este se descasque à insignificância como um palimpsesto exaurido. Cícera morreu tão brevemente. Estava andadeira como sempre, visitando brechós e sebos e trazendo sacolas de tralhas para casa, de repente foi abalada pelo mal-estar, descobriu em si um tumor e em uma semana não mais era. Eu encostei no corpo — e o corpo estava frio. Um frio não-natural, paralisado, brusco. A pele possuí uma verdade que nós ignoramos cotidianamente. Naquele dia, eu prometi, mais ou menos, lembrar-me de tocar o outro, sentir o calor próprio do vivente, de abraçar, quem sabe, pois que tudo isso é efêmero, os primeiros a serem assassinados serão o toque, o cheiro, o gosto. Beija esta fronte morta: a dureza confronta os teus lábios, ridiculariza o teu afeto. Os narizes tapados com algodão lembram que é tudo uma farsa; o odor doentio das flores teria um acento de podridão sem cuidados de contra-regra. As pessoas que amamos são carne, são sangue, amamos o que pulsa, perdemos o que pulsa. Eu chorei. E me questionei: eu posso chorar? Tínhamos nos conhecido há pouco tempo, tivemos poucas conversas, mas eu lhe guardava simpatia — e isso é o bastante para chorar? Senti o pavor do possível impostor. Chorei, de todo modo. Claro, ninguém me repreendeu e é mais provável que ninguém me julgasse. Hoje ainda testemunharia a meu favor, hoje eu ainda me diria sincero. Se não podia chorar, havia o que chorar: o choro é a reinvenção da pessoa como memória, é a reorganização das memórias não mais como dínamo, mas arquivo.