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episódio 38 – Anciã no Céu sem Livros

E se a verdade fosse só um contra-tempo? Urgia uma história para recobrir a dor, morfina no sangue do luto. Senti o frescor da fantasia assim que vislumbrei a premissa, que dava, mais ou menos:

Para a avó, ter morrido não fora mais que um espirro; falecer coube num ops!, num eita! e quase chegava ao mas minha gente! Ela sacudiu a cabeça, alisou o vestido no corpo e olhou ao redor. Era o céu. Adiante, São Pedro lhe olhava curiosíssimo. Quando a mulher lhe virou os olhos, ele se apressou a perguntar: “Isso que a senhora traz aí são livros?”

Sua sabedoria teria sobrevida, sim, que alegria! O próprio Paraíso teria necessidade do seu garimpo literário. A estrutura precisa logo se acrescentou ao germe do enredo, e eu soube que teria de levar o leitor em uma jornada de encontros pontuais, cada qual com um livro no bojo, pois só assim seria renovada vez após vez a aventura, de tal modo que mesmo após o fim dos episódios se estabeleceria claro que o caminho poderia prosseguir indefinidamente.

“Sabe, minha senhora? Por aqui nós só temos a Bíblia, e nem um épico tão sangrento, uma deliberação ética tão portentosa, uma argumentação teológica tão embrenhada quanto ela pode sobreviver ao tédio de uma eternidade de leituras. Já reviramos os textos sagrados de tudo o que é jeito, já lemos escondidos todos os apócrifos. A gente quer uma novidade.”

São Pedro era baixinho, a senhorinha era alta, então ela o via um tanto de cima, agitando a cabeça em concordância de vez em quando. Quando ele terminou, ela se agachou e abriu a mala que trazia consigo. Estava repleta de livros. São Pedro sorriu de maravilha. “Acho que você precisa de uma série. Pra ter bastante e durar. Em Busca do Tempo Perdido ou Crônicas do Gelo e Fogo?”, perguntou a mulher. “Manda os dois”, respondeu o santo.

Seria interessante também, pensei, se não só o conto fosse sendo guiado pela entrega de histórias, mas se a sua própria tessitura fosse costurada de narrativas outras. Desde o título — uma corruptela de Lucy in the Sky with Diamonds: Anciã no Céu sem Livros — até os anjos que encontrasse em seu périplo, que teriam asas de crepom branco e algodão grudadas com Super-Bonder para referenciar Cherub Rock. Como se saltássemos de uma a outra; uma infraestrutura Mil e uma Noites.

“Será que a senhora poderia fazer umas visitas aqui pelo nosso cafofo, levando essas glórias     de Deus?”, pediu São Pedro, “sabe, minha senhora, tem gente por aqui com mais de trinta         mudas de pena e não botou a mão nem em um gibi.”

De Miguel a Rafael a Gabriel a Uriel a Jegudiel a Salatiel a Baraquiel, distribuindo de Joyce a Pratchett e de Toryiama à Clarice. Talvez inserir um interlúdio em que a avó é contatada por Lúcifer, que pede a ela que diminua o déficit livresco do inferno. Então de Belzebu a Mamon a Azazel a Asmodeus a Leviatã a Belfegor e de volta outra vez à Lúcifer. Quem sabe a leitura dissuada as facções da guerra final que levaria ao apocalipse, e o filho pródigo da luz reate os laços com a luz pela luz da poesia.

Ou ainda possivelmente o próprio Deus sinta falta de um livrinho, mas nada já escrito poderia trazer satisfação nesse sentido, então o Todo-Poderoso demandaria, analogamente ao evento nuclear de A História Sem Fim, que a avó lhe diga um nome, um nome novo, que pingará em Si fazendo tremer águas primordiais, nome-semente inesperado como Adão, como Eva, “outra chance de a Serpente Me presentear com a surpresa”, nome-big-bang, e eis que a avó o diria, e o nome seria

***

Li o conto à Shiawase, ela sorriu com ternura, abaixou os olhos mareados e se deixou em silêncio. A folha pendia na minha mão, exaurida das suas potencialidades.

Deixei-a cair. Mantive a quietude por mais algum tempo e então me confessei: devo partir. Ela olhou para mim como se já soubesse. Aproximou-se, estudou o meu não-rosto, tocou as sombras, que se enrodilharam entre seus dedos lentas como um óleo, rarefeitas. Com suas mãos brancas ela afastou as trincheiras e me encontrou. Beijamo-nos. Então tomei minhas coisas e caminhei ao fim.