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39 – Escalada da Torre de Hermes

A torre de Hermes rivalizava em altura com o pico do Jaraguá; erguia-se, cilindro de pedra-amarela, até às alturas de uma memória imperecível. No sopé, estava o deus que lhe dava o nome. Seus pés sangravam: alguém havia arrancado asas que, mais intrínsecas que sandálias, nasciam diretamente deles. Seu corpo, coberto por vagos panos brancos sujos, afundava aqui e lá em hematomas. Não obstante, ter-me visto deu-lhe alguma satisfação.

— Telêmaco malfadado! Eis o herói!

Ele me contaria que havia lutado contra Kachiaru. Procurara defender a torre, os tesouros de poder que ela guardava em seu topo. Não pudera. Pensava ter causado danos significativos ao adversário, mas certamente não foram o bastante para derrubá-lo nem atrasá-lo na sua investida. “Lá em cima”, me explicaria Hermes, “ele encontrará não só licores de pura energia como mais uma das esferas — sim, o seu pequeno radar não a encontrou, nem encontraria: essa estrutura atravessa realidades”. Agora eu reparava a enorme destruição que a batalha impusera ao redor.

— O herói! Perseu que se encontrou Narciso nos olhos da Medusa. Ulisses que diariamente costura e desfaz penélopes sucessivas. Teseu pet sitter passeando minotauros pelo labirinto.

Observei, e as palavras para descrever o que via me ocorreram como se já houvessem sido escritas: era uma terra agonizante, mas que ainda não morrera. Por que? “Ele aprendeu um truque novo: pode sugar a vida de tudo para dentro de si, concentrá-la numa esfera e lançá-la contra mim. É sorte sua, não penso que poderá fazer outra vez.” As coisas cresciam ásperas, retorcidas, amargas, lutando. Espinhos, musgo e moscas pardas, cinzentas, negras; nuvens de mosquitos doidos de fome.

Whatever happened to the heroes? Whatever happened to the heroes? – Hermes passara a cantar, debilmente – no more heroes anymore, no more heroes anymore.

Hermes sempre sentira prazer em ser parte do sangue das aventuras. Mas naquele dia a derrota lhe amargara a índole. Com estafa, indicou o alto da torre com a testa. Sim, está certo. Cumprimentei-o com o olhar e segui adiante. Busquei frestas na pedra áspera, agarrei-me, soergui o corpo, então busquei casa para as solas. E aí de novo, e aí de novo. Quando olhei para baixo, o deus já avançava, curvado, braços pendentes de babuíno; os olhos amarelos e doentios na sua careta avermelhada e branca não pareciam mirar nada em particular; gingando a bunda vermelha, sacudindo a pelugem espetada, caminhou até pegar entre matos sua roupa de viajante do espaço. Armou-se astronauta vagarosamente. Antes de por o capacete pareceu notar-me pequeno pontinho pausado. Moveu os beiços babentos como se dissesse. Sua voz sem som retumba ainda no interior do meu crânio.

***

Logo a terra estava longe. A pele sufocava e ardia sob o sol, cujo brilho não deixava saber o quanto mais perto de qualquer coisa eu tinha me colocado. Horas e horas seguiram nessa toada. Quando a noite caiu, me acomodei à beira do abismo sobre um bloco tanto mais largo que os demais. O outro dia, e os outros depois dele, me entregaram sóis tão pérfidos quanto o anterior. Minhas reservas de comida e água começaram a se esgotar na quarta manhã. Logo eu escalava sem recurso algum, com a cabeça zonza e pesada, as veias pulsando nas têmporas, os olhos secos, coçando e queimando. Na noite graciosa em que choveu, permaneci encharcado, quieto, fruindo um mínimo de vida.

Pensava sobretudo nos amigos que fizera ao longo do percurso. Eu vivera uma espécie de benção: estivemos alinhados, Shiawase, Kyua, Jintoku, Hikari, Shukun, Hinagiku e eu — quanto tempo até a glória de alinhamentos tão poderosos novamente? Nossas epopeias individuais, entrecruzadas e/ou sobrepostas, por sorte, gerando assim destinos. Aquilo em que rimávamos em situação e intentos, quem sabe nunca mais se desse. Seguíamos épicas ainda irmãs, no entanto distantes — assim como certo dia, ou agora mesmo, eu poderei compartilhar armaduras distintas ou viver vidas outras.

E se não vierem outros alinhamentos dessa estirpe, por quanto eu teria ou poderia me alimentar só do eco? Quanto tempo travar a digestão total das lembranças?

***

O afeto voluteia, compõe e decompõe. Impraticável remontar a qualquer estado particular anterior. Possível talvez seja evitar o instante decisivo em que passamos a gostar das pessoas — e arriscar-se jamais nesse redemoinho. É mandatório que o gesto, aí, seja vigoroso: uma hesitação e o instante se desfaz, e veloz nasce ao lado dos nossos sapatos uma flor tímida. O afeto ramifica-se, densifica locais e sujeitos: os homens e as mulheres que amo pesam fundos no tecido estendido da minha alma, como crateras na epiderme de um planeta — eu-território incorporo os meteoros. Âncoras — e faróis; estrelas-guia. Ilhas encantando o continente. E o perigo — ah! — o perigo de uma Atlântida.

***

A escalada descortinava um céu acima do céu, no qual as nuvens compunham um descampado que mentia solidez. A brancura pululava de figuras associativas: acidentes geográficos de algodão-doce, crânios esculpidos em claras em neve, fumaça de cigarro à guisa de desertos e estepes. Atravessar a água e o gelo suspensos era impassível como tocar um fantasma, porém. A contradição entre o fato e o delírio extraía verdades das falácias e vice-versa: eu estava em um território próprio à fábula. O mundo lá embaixo se embaralhava em macondos e madeleines. Cheguei ao topo.