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episódio 40 – Despertar do Comburente

Como um ovo deitado e cortado precisamente ao meio, as fatias distantes uns metros uma da outra, a de cima sustentada por pilares, a de baixo equilibrando-se de maneira frágil sobre a torre. Alcancei uma escada disposta na lateral da estrutura e subi à plataforma central. O porcelanato branco, liso, se espalhava de um ponta a outra, fazendo fronteira à pedra rústica do contorno como o oceano se choca com a encosta. De pé, no outro extremo, me aguardava o inimigo.

Estava eu exausto e faminto. A ascensão cobrava seu preço em dormência e rigidez de músculo. Eu respirava pela boca, como o peixe arrancado à perplexidade. Ele via. Ele sorria. Tomei fôlego e botei o corpo endireitado. Exclamei: me dê as esferas. Eu exijo que me dê as esferas. Lá, prosseguiu aquele mórbido gato de Cheshire. Lá, na outra extremidade da reta, a maleta, o cigarro, o sorriso imóveis.

— Seria neste momento – respondeu ele, sugando o veneno – que eu gargalharia alto e você saberia que não há, nem nunca houve, outra possibilidade senão lutar…

As sombras dançavam fumacentas e translúcidas em frente aos meus olhos; assisti ao seu rosto ser coberto pela nuvem branca de resíduos de nicotina e outros tóxicos. Apertei as mãos em punhos e afastei as pernas por mais sustentação. Pus-me em posição.

— …você saberia, você sabe. Vamos direto ao ponto, então?

***

Engoli o sangue que vazava dos rasgos do lado interno da minha bochecha; o inimigo me atingiu de súbito, seu golpe me estourou a boca, eu sentia os fragmentos de dente na língua, uma sonolência doentia me percorria o cérebro. Mas eu estava de pé. Ergui a cabeça quando a sua aproximação se fez adiantar por uma lufada de ar ardente; o soco no estômago me dobrou ao meio, me fez flutuar por alguns segundos, enquanto ele entrelaçava as mãos e as descia na minha nuca feito marreta. Eu provei o sabor do concreto da torre de Hermes. Mas instantes depois, trêmulo, cego de sangue, eu me coloquei disposto, eu estava de pé. Ele não pode ser derrotado, porém eu não posso perder.

I’ll keep taking punches until their will grow tired. Outro murro. A cabeça jogada para trás feito a de um boneco. Outro. Kasshoku proliferava-se aceleradamente no meu sangue, tingindo minha pele de tatuagens serpenteantes, mas não podia me regenerar rápido o bastante. Outro. A dor é também conforto, afinal você sabe o que esperar do próximo instante. Outro. Lembranças assomam à mente: um garoto perfurado em vários pontos da carne pelas quinze estrelas da constelação de escorpião; um garoto que corre no último fôlego da esperança por uma escadaria recoberta de flores que busca hipnotizá-lo ao sono e à morte. Outro. De quem são essas memórias? Outro. Estão aqui, esses tantos são como eu, eu vivo o que eles viveram. Outro. Não. Viveram ou tampouco, tanto faz; me enxerto.

Abri os olhos. A palma do inimigo a um palmo à frente do meu rosto, incandescente. Explodiu numa rajada violentíssima, tiro de canhão na cara. Acordei após um curto coma, pilar demolido nas minhas costas, rasgo fundo na pedra denunciando meu caminho pregresso à frente. Como sobrevivi? Notei enfim que me refrescava a fronte outra vez o ar: as sombras endureceram em escudo e salvaram a minha existência? Talvez. Renovadamente nu, levantei-me de novo. “Por que você não morre?”, eu o escuto dizer. Um homem que congela as balas à frente e implode o adversário com um mergulho ontológico. De onde vêm essas memórias? Enxertava-me nessas possibilidades do impossível, é isso, eu frui naquele momento uma lucidez incrédula. Do que me chamaram? Comburente

O que é que queimo? Este mundo queima por meio de mim. Ele sussurrava a sua dependência, tinha o medo de fenecer junto comigo. Aspirei o tudo. A força infinita me destripou, inchei de energia, os meus olhos fachos brancos, a minha boca holofote, direcionei as palmas das mãos ao inimigo.

***

Ele aguentou. A realidade se esfacelava ao redor dele e ao longo da gigantesca torrente desfechada através do meu corpo, mas ele continha toda essa potência mobilizando tudo o que era tinha. Porém por fim foi engolido pela rajada. Incinerou em fogo atômico, urrando sem som. Quando tudo cessou, não tinha caído. Cambaleante, tentou armar um golpe. Caiu de costas.

Deixei-me deitar também: o descanso soava doce como um buraco-negro. Em meio ao torpor, notei que no centro do teto da torre de Hermes existia um nicho no qual se aninhava um globo de pedra. Sem reação, vi-o começar a girar, tão logo quanto pequenas linhas que expulsavam luz surgiram na sua superfície lisa. A bola acelerou suas voltas e veio descendente, abrindo gradativamente de modo a montar com suas partes deixadas a cada altura um degrau.

Terrivelmente débil, fora o inimigo que, com artes por mim ignoradas, ativara o mecanismo. No pé da escada, ele me fitou com uma expressão de afogado, e então subiu.