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41 – Esfera de Seis Estrelas: Aborto

Arrastei-me degrau a degrau, atravessei a abertura circular no topo e cheguei a um terraço do qual partia uma passarela esculpida em formato de cobra, extensa a ponto de não se divisar a cabeça a morder o infinito lá adiante. À esquerda e à direita nuvens felpudas e amarelo-manga se alongavam como um tapete. Respirar o novo ar que se espalhava nesse nível desanuviou a minha debilitação. Ainda fragilizado, mas capaz de prosseguir, comecei a caminhada pelo que eu saberia ser o Caminho da Serpente. Por um sem tempo segui, meus passos ininterruptos nada mais que o movimento sem movimento, já que sempre como se nada mudasse no centro entre duas linhas sem extremidade.

Logo era como se eu estivesse em uma espécie de nulidade, apenas um pensamento dormente com um vetor. Seria razoável se eu tivesse me agarrado então às minhas memórias — mas era também a chance de escapar das memórias e suas bombas-relógio, cercas de arame farpado, areia movediça.

Só voltei a mim quando encontrei – abandonada, perdida ou deixada como dádiva – a esfera de seis estrelas. Peguei-a na mão e deixei-me mais uma vez afundar no que os orbes contam.

***

Um universo em que não houvesse a luz obsoleta das estrelas, no qual em tempo real pudéssemos vê-las nascer e morrer, ou melhor, que vislumbrássemos acenderem-se as constelações futuras. Eu aceitei morrer com cerca de 12 anos. Nadando em uma praia de Santos, fui fundo demais. Meus pés remexeram a água sem poder riscar a terra. Ninguém estava próximo. Não me desesperei: avaliei o momento, fitando sem dar-lhes atenção os prédios tortos além da avenida. Conclui: ok, vou morrer. De alguma forma, pouco depois dessa indiferença e tomando o seu lugar com só um pouco menos de debilidade veio a decisão oposta: não, vou viver. Então me agitei, gritei, consegui que me vissem, viessem e me levassem. Antes e quando rebocado pelo salva-vidas, eu me fascinava com o que tinha podido pensar, mais, me chocava (com o acréscimo de um toque de orgulho) com o fato de ter, sem falsidade, escolhido o suicídio, assim “tão novo”. Um messias-casmurro em uma dimensão vencida pelo niilismo, em que o levanta-te e anda é substituído pelo murcha-te e recua, não Lázaro redivivo, mas gravidezes desfeitas; um flautista de Hamelin a quem já de início pedem para que dê sumiço às crianças, “os ratos são um problema menor”. Pode ter sido a primeira, mas não foi a última vez em que me ocorreu me matar — contudo mais precisamente concordo com o verso “I don’t wanna die, but sometimes I wish I’ve never been born at all”. Escapar por inteiro da avassaladora dialética que mobilizou Hilda Hilst: nem ter sido nem estar sendo. Por que me sinto e me raciocino dessa maneira? Deleuze fala que alguns escritores portam certa marca da morte? Carrego-a eu? Seria possível fazer uma pseudoargumentação nesse sentido: eu poderia lembrar que desde a gestação não fui um ser vivo promissor; que a minha concepção tomou sete anos, que já em estado avançado, a minha mãe correu risco de me perder, período em que (ela me contou) ouvia repetidamente “Índios”, da Legião Urbana (busquei tantas vezes nessa letra o que é que ela encontrava aí; será pela referência repetida às riquezas desperdiçadas? Será que eu coube no “você” do refrão? — “é só você quem a cura do meu vício de insistir nessa saudade que eu sinto de tudo que eu ainda não vi?”). Mas eu penso que estaria mentindo se procedesse dessa forma. O ferrete da morte não é meu privilégio. Um Narciso-aranha que fiasse uma teia de intrincados padrões e enorme extensão, pela qual se apaixonava, na qual passava a se lançar sob a esperança de ser capturado, no entanto, claro, incapaz disso, imune demais, nunca presa o suficiente, sempre algo destacado apesar da beberagem do engano. Minha mãe sofreu o pavor de perder um bebê, a ameaça do aborto natural. Por que o pavor? Um feto não é mais que o acúmulo cada vez maior e mais habilidoso de células, até a arrogância mamífera que passeamos ao túmulo. Mas se só isso o aborto não aturdiria ninguém. Por que se postula que a alma se acopla à carne já no instante em que espermatozoide e óvulo se conjugam? Porque, de fato, algo de simbólico foi gerado. O aborto assusta não porque interrompe um bicho, mas porque assassina uma narrativa. É a alegria prometida de segurar no colo que leva um tiro na testa. É a promoção ao status de responsável pela vida de alguém, é enfim ter, de modo palpável, um destino (uns abraçam, outros fogem). Kundera afirma que recorrentemente buscamos construir-nos sobre um “deve ser”. O aborto abala a vontade de determinação. Nos retorna à leveza. Eis aqui na verdade um exemplo menor de uma circunstância existencial maior: somos levados no fluxo das histórias. Em situação de paz, é nelas que nos aconchegamos. Sobre os sismos, é a elas que nos apegamos mais que nunca.

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As outras esferas pontuavam o Caminho da Serpente como pedaços de pão. Reencontrei a de duas estrelas, a de uma estrela, a de cinco estrelas. Só a de quatro estrelas não encontrei tão facilmente. Assim, somadas as que eu havia encontrado pós-torneio – três e sete estrelas – enfim eu chegava a portar seis de sete. Só mais a orbe com que tudo principiara e eu concretizaria o meu objetivo.