Início » 42 – Última Página da Força

42 – Última Página da Força

Sem as esferas para ferir o mesmo com o diferente o percurso mergulhou-me em catatonias cada vez mais profundas. Caminhar a serpente comeu meu cansaço e minha força, meus projetos e meus fracassos. Ruiu minha identidade, regurgitou um dinamismo discreto. Meus pensamentos, meus sentimentos, eles boiavam estrangeiros sobre um seguir em frente que não parecia implicar em um avanço. Mais: eu vibrava. Como um átomo isolado continha tensão e nada.

Depois de quanto? Cheguei à boca da cobra.

Percebi-me em um piso emborrachado marrom-claro. Tentei mover-me; senti com súbita verdade, que havia desaprendido o andar. Contemplei os padrões geométricos do chão por longo período.

— Vem, filho.

Voz-farol. O horizonte é a mão de alguém.

— Vem, filho.

Eu engatinhava. Não sei andar, mas ele sabe que andar está em mim. Equilibrei-me em duas pernas. Era… duvidoso. O corpo oscilava para frente, para trás, os dedos, as solas dos pés, tensionavam-se para agarrar o solo, para frente, para trás, as mãos inúteis, afogadas no ar, para frente, para trás, ele me chamara, para frente, para trás, e o que me detém não é o medo — cair não é algo contra o qual me previna, cair seria inaugurante —, estava só em contemplação dessa coisa incomum que é ser bípede. Porém ele chamara — bondade à vista!, apressam-se os navios — então, para frente, para trás, um passo. Voou sobre os abismos o meu pé e havia do outro lado algo tão seguro quanto. Um passo. Ainda funcional. Um passo. O equilíbrio agora quase entediante. Um passo… e rapidinhos múltiplos outros. Veloz… e cadente, surpreso sou salvo da queda; ele me segurou, ele me abraçou.

Estava de pé, os sentidos novamente nítidos. À minha frente, um homem aleijado e atrofiado sofria.

***

A potência de Kachiaru, humilhada. O braço direito agitava-se bambo no espaço, contente de poder mover-se? Vago, lento, estupidificado. O esquerdo e as pernas restavam enrijecidos. O antebraço e a mão curvados contra o peito e a barriga, os membros inferiores parodiando a posição fetal. Esticar os músculos não significava outra coisa que dor; sua paralisia era o mais alto que almejava. As costas crateravam de escaras — fundas, pegajosas, com sangue e pus reluzentes. O odor de bosta na fralda e de urina na bolsa cirúrgica tornavam denso o ambiente e demarcavam os sentimentos possíveis. O olhar no seu rosto era o do sofrimento da escassez de si. Entretanto na boca entortada, nos dentes poucos, roídos de tártaro, quando uma alegria-mártir o mobilizava, eu reconhecia o seu sorriso.