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43 – Lições do Sétimo Mestre

Aí então ocorreu meu derradeiro treinamento.

Descobri estarmos num planeta em miniatura — sem pressa, era possível rodeá-lo em uma manhã — coberto de uma grama verde-desenho-animado e ocupado por apenas uma casa. Atravessando o portão branco, enferrujado, sujo, da residência, víamos a nosso lado um jardim, em que azaleias, roseiras, pés de arruda e boldos-do-chile confraternizavam (entre as tantas, admirei uma planta que dava frutinhos vermelhos e tinha a minha altura). Mais avante na propriedade, estava estacionado desde sempre um Gol cinza escuro. Espremíamo-nos na sua lateral para chegar à porta de entrada.

Dentro, uma sala que servia de escritório e oficina de eletrônica. As paredes brancas desfaziam-se em quilos de pó sobre a cerâmica branca do piso. Uma estante de mogno aguentava enciclopédias Conhecer e Larousse, uma coleção de Os Pensadores, a obra completa de Victor Hugo, a compilação de citações Dicionário da Sabedoria, de A. Della Nina, apostilas do Instituto Universal Brasileiro. À sua frente, a mesa longa de madeira escura se recobria também de chaves de fenda e alicates, rádios feitos sobre tábuas de madeira, ferros de soldar, uma caixa com fitas K7 de música caipira.

O horizonte era granulado por uma infinidade de outros planetas mínimos. Como que de brinquedo, eles giravam em tons fortes de cores primárias dentro de contornos pretos bem definidos. Giravam, giravam, e então alguns explodiam ou simplesmente caíam como moscas abatidas. O debacle desses variados mundos nos assustava e divertia, embora não soubéssemos sua explicação, seu significado.

As coisas que existem, como dentes-de-leão, salvar-se-ão alhures?

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Kachiaru me guiou pelo seu conhecimento. Do simbólico — aprendiz, companheiro, mestre — segui  ao filosófico — cavaleiro, missionário, guardião, servidor, em que se enfileiram lealdade, franqueza, verdade, coragem, justiça, tolerância, prudência, onze completos, daí à probidade, perseverança, liberdade, igualdade, fraternidade, perfeição, agricultura e pecuária, indústria e comércio, trabalho, economia, educação, enfim o nível 23, aí organização social, justiça social, paz, arte, ciência, religião, filosofia, bem público, civismo e pátria e humanidade. Kachiaru me orientou ademais a passar, como Jesus, 30 anos vivendo na cabala (para, quem sabe, feito ele morrer de velho na cidade de Caximira, na Índia). Kachiaru me repassou a arte da parapsicologia, de estancar sangue a hipnotizar gente.

Ele me dirigia à banca de jornal e me afeiçoava à leitura. Nesse fluxo li os diálogos em que Platão se esforça para inventar uma sobrevida à Sócrates; não entendi nada, mas creio que as palavras desde aí passaram a boiar em mim causando todo tipo de efeitos. Ele me educou no confronto aos crentes que de porta em porta vinham anunciar redenções e continuidades, ele os contradizia e procurava fazer com que se percebessem estúpidos. Sua ética era tão clara quanto a de Hinagiku, concentrada em frases simples: “seja seu próprio chefe”, “tudo é feito por interesse”, “todas as invenções foram feitas por causa da preguiça”. Ele me ensinou palavras-sismo, como “autodidata”.

Eu me fortalecia, mas para que? Kachiaru era meu primeiro e último grande adversário. Quando sua degradação chegasse ao ápice, minha força se evidenciaria supérflua.

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A convivência com essa degradação, no entanto, me lembrou que a luta atual se renovaria mais uma e mais outra vez, indefinidamente. People come and people go… o risco nunca foi tão nítido: minha avó morta, minha avó morta, me dói até escrevê-lo, um dia esta história será velha e essa frase será verdadeira, eu a lerei como um exorcista fracassado, nada me aterroriza mais.

Em muitos outros dias previ ocorrer, respirei acontecer, chorei em meio ao sono, até sentir o alívio de saber que era irreal — e nem tão alívio, pois irreal, contudo por enquanto. Desperto, à salvo, me envolvia e mastigava por muito tempo ainda a perfeita profecia. Constipado, os olhos molhados, o corpo encolhido, eu sofria, pequeno e patético. Mesmo imaginei que, no fim das contas, isso tudo era benigno: me dispunha cara a cara com meu terror, me faziam vivê-lo de imediato; quando viesse enfim o de verdade, eu estaria preparado, me atingiria menos — imaginava e logo me contrariava: como eu poderia estar preparado para perder a pessoa que me preparou para tudo? Se ela dorme, eu me assusto — observo seu peito, vejo se ainda se move — se, de manhã, demora-se para acordar, eu me assusto — terá sido hoje nesta noite calma? Dores de cabeça, um aviso? Gripe, presságio? A rotina me mente tamanha garantia: só quero que tudo fique como está, só quero que fique…

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Alguma coisa vai se salvar? Enquanto aqui lanço mão do meu último recurso contra a morte ela não pode estar manobrando para me atacar pelas costas?