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episódio 44 – Esfera de Quatro Estrelas/Duanne

Quando seu corpo enfim viu-se concluído, meu mestre, passou a suar muito, opresso pelo susto e confusão na face. Mesmo tendo mastigado a previsão do pior até ela se tornar fugaz (e tendo, dessa forma, certeza da escapatória), eu me preocupei o suficiente para procurar salvá-lo. Venha, teremos de recompor nossos passos no lombo da serpente, vamos, temos que voltar ao mundo. Ainda a sua face que não conseguia dizer nada, mas ele conseguiu estender sua mão boa e me ofereceu: enfim, a esfera de quatro estrelas. Eu tinha chegado a um ponto final. Olhei no olho do orbe para receber a sua ladainha. Nada. Não tinha tempo, porém, para considerar essa ocorrência propriamente. Pus meu adversário nos braços, galguei o réptil e reiniciei a corrida.

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(Eu quis dizer à Letícia: “Ele me ensinou a andar”, mas não era só isso que eu queria dizer com “ele me ensinou a andar” — engasgado, a voz embargada, primeira e segunda tentativas falhas, terceira enfim, eu queria dizer: ele me ensinou a andar! Ele me ensinou a andar. Creio que ela não soube o que eu dizia; a sinceridade minha mais verdadeira é, assim, esse mensageiro incapaz.)

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A catatonia do caminho me afogou outra vez, eu me movia com a vítima no colo sem saber de final ou começo. Mas agora não me parecia estar descolado do tempo, como se corresse sem que meus pés tocassem o chão. Tratava-se mais agora, do furioso movimento concomitante de tudo. A própria cobra debaixo de mim parecia apressar suas escamas, lançando-me adiante, às vezes em um ritmo que eu não podia igualar, a que eu tinha de resistir para não cair. Às margens, ao longe, os planetas pequeninos surgiam ou decaíam em suas velocidades particulares, e eu, por estar imerso na corrida de agora, perdia vislumbrá-los ou descobri-los, talvez para sempre, ao passo que nem pressentia os que viriam para sem querer querer sufocar a saudade dos passados. Correndo, era como se eu me movimentasse, ou não movimentasse, ou só ou um pouco, ou estabanadamente.

Correndo, correndo, de todo modo eventualmente enfim pude ver a abertura da torre, a saída, sim! Correndo ainda, ouvia o barulho descontrolado das sirenes, sentia desviar dos carros ansiosamente. Olhei meu avô e meu avô me olhou e nós nos olhamos nos olhos e não sei se ele estava consciente mas foi a última vez que nos olhamos nos olhos em toda a vida. Eu havia reconhecido o seu sorriso, eu reconheci o seu amor então também. Eu poderei buscá-los? Pois ele sorri para sempre em fotos-arquétipo que não aguento confrontar. A gente em Aparecida do Norte, eu mesmo tirei essas fotos. Meus aniversários, eu fantasiado de Jiraya ou Batman. Você ao meu lado, me erguendo para soprar as velas. O que eu desejei então? Garoto tolo. E eu, bebê, tocando o seu queixo, poderia saber que seria esta a última pessoa a vê-lo vivo, este menino pegando no seu rosto, vô?

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A saída, vista de cima tão aparente a uma entrada para o abismo, estou fora, venha a mim a epopeia ainda mais uma vez, onde porém a torre, onde o deus, agora? Estou num escritório. A porta fechada, olho-burocracia orientando sobre necropsias e atestados de óbito. A compreensão compreendera. Os olhos alagaram, corri a represar os diques, pois não diante deste estranho. A língua-pragmatismo seguia: se houvesse um médico de confiança, era sugerido chamá-lo para assinar a comprovação da morte, ou teria de ser feita uma análise do corpo para fins documentais do hospital. Minha mão se escorou na mesa, minhas pernas em prévia de desmaio. Pensei: então isso ocorre mesmo; pensei: será que estou fingindo? Minhas memórias vazaram no discurso desses lábios e dentes movendo-se na face porosa quase cobre de um porra de camisa xadrez e jaleco, meu avô sorrindo it sung like a violent wind that our memories depend on a faulty camera in our minds meu avô morreu. Meu avô morreu. Acharmédicodeconfiançaevitarnecropsialigarpraminhamãe. Meu avô morreu: nada depois desta frase; nada antes dela? Como se deixássemos o possível para trás: a substância seca.

Onde as planícies, as aventuras? Tomei o telefone do gancho. Minha voz não se sente capaz, mas é preciso. Eu digo: mãe — e hesito. Eu digo: mãe. E ela sabia. Antes que eu possa dizer, ela sabia. Eu escutei minha mãe chorar e o meu braço tremia, eu disse e eu cumpri o que devia fazer. Estou nessa cadeira qualquer e via a porta do hospital quando eles chegaram. Como em um filme mudo, os filhos transmitiram a mensagem à mãe, e eu assisti. Há um instante delicado em que eu não vejo qualquer sentimento nela, e é a alma procurando por alguma fuga. Porém: não. Na noite encoberta, então, houve um abraço, eu o senti tão bonito, e eu sei tão bem o que sentiam, minha avó, meu tio e minha mãe, conexos pela notícia. Minha dor no entanto não se percebia capaz de ser dividida. Mais adiante naquela noite, eu cumpri outra vez o que devia fazer. Madrugada, andando de carro, eu e meu tio até tivemos uma conversa de futilidades. Como tudo se dopa. Na cama de metal de um necrotério a carne fria e dura estava lá para que a vestíssemos com suas roupas de gala definitivas. Sinto esse gesto absurdamente tão bonito, eu queria senti-lo, no entanto, como uma carícia.

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Em um três de julho que é sempre ontem, agora a coisa pálida no coração da sala. Ao redor, a tensão do ritual se afrouxa, são permitidos gracejos, conversas à toa. O cadáver nos reúne em circunstância, mas não em sentimento — que é que você faz neste velório, que é que faz nesta morte que é minha? Meu choro é autoexílio conforme prosseguimos à cova. O dia está criminosamente bonito. No céu voejam pipas canalhas. A madeira e a carne morta foram enterradas, logo irão de volta à casa meus familiares, a normalidade colonizando os pensamentos com velocidade — “era a hora dele”, “foi o melhor” (posso imaginar uma série de cenários melhores), “como fica a avó” — mas eu, eu não! Eu tenho comigo as sete esferas do Dragão. Eu posso fazer tudo ser como era antes.

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(Para me purgar, escrevi à Letícia, ao Rafael e ao João um e-mail em que eu narrava com detalhes a morte do meu avô, uma crônica de como passei por isso. Escrevi aos três; vocês, por exemplo, não têm o menor direito de lê-la — pela diferença entre a gota de óleo no óleo e a gota de óleo na água.

Mas, se é assim, o que é que eu tenho feito ao longo de todo este texto?)