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Thiago Rosenberg: Um luto que concebe a aventura

Duanne me pediu um depoimento para os dois anos de lançamento do seu As esferas do dragão. A primeira coisa que pensei quando parei para pensar no depoimento foi que meu avô ainda vivia quando li o romance. Logo em seguida me censurei: isso não diz nada sobre o livro em si, ponderei, mas então voltei atrás: é em decorrência da morte do seu avô, afinal, que o protagonista do livro engendra sua aventura.

Menos de um ano depois do lançamento do livro, o então novo coronavírus se espalhou pelo mundo, matando – em sua forma original, pelo menos – sobretudo as pessoas mais velhas. Muitas avós e avôs entre elas. No Brasil o vírus encontrou um aliado no poder, e a parceria entre a doença e a política negacionista e genocida do governo colocou boa parte do país num estado de medo e de crescente desesperança, de ansiedade, depressão e luto.

Quando penso no livro do Duanne e no período que se seguiu ao seu lançamento, o aspecto da obra que mais me comove não se relaciona diretamente às qualidades do texto em si, que são muitas. Há o diálogo entre os registros ficcional e autobiográfico, há o encontro original e instigante entre a estética do anime e elementos da cidade de Santos e outros espaços de fato frequentados pelo autor, mas há sobretudo uma abordagem do luto que pode valer como um alento no cenário atual: um luto que concebe – tanto no sentido de admitir quanto no de gerar – a aventura.

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Thiago Rosenberg, jornalista e escritor